quarta-feira, 29 de março de 2017

ALUNA REAÇA E ANTI-FEMINISTA PROCESSA PROFESSORA FEMINISTA

Assim que li a notícia sobre uma ex-aluna da Udesc que está processando uma professora por dar aulas sobre feminismo numa disciplina (o curso se chama História e Relações de Gênero, o que a aluna esperava?), desconfiei de quem se tratava. Fui pesquisar e pimba!, é ela mesma (a aluna, não a professora).
A primeira vez que ouvi falar na moça reaça foi há alguns anos, quando um leitor me enviou um link para uma postagem no Facebook dela em que ela perguntava quem era mais bonita, eu ou ela. Devo ter comentado algo no meu Twitter sobre a insensatez de uma moça se comparar comigo, que tenho o dobro da idade, como se estivéssemos disputando alguma coisa. Acho que ela deletou o post em seguida.
Um tempo depois, chegou a mim um vídeo dela no YouTube em que ela era entrevistada por algum outro reaça sobre feminismo. Não lembro muito sobre o vídeo, sinceramente (ela o retirou do ar), apenas que ela despejava incontáveis bogagens sobre um assunto que ela claramente não conhecia. O que foi inesquecível foram duas coisas: o entrevistador abrindo a entrevista dizendo que iria chamá-la de "Doutora" -- "porque pra mim você é doutora", justificou ele --, e a "doutora" afirmando que o papel da mulher era cuidar do marido e dos filhos e, que, assim que ela se casasse, iria abandonar a profissão para seguir a vocação de toda mulher.
Pois é, essa moça tinha -- tem -- profissão. Ela é professora de História em Santa Catarina. Ensina a seus alunos de oitava série o que aprendeu com o tutor Olavo de Carvalho: que o nazismo foi um movimento de esquerda. Em 2013, ela mesma postou, orgulhosa, a redação de uma aluna sua. 
Depois, vi que ela era uma das organizadoras de uma página no Facebook chamada Musas Olavettes. Na página, havia várias fotos de mulheres de direita que adoram o astrólogo, digo, o sociológo e guru da extrema direita nacional. Creio que a página não sobreviveu muito tempo. Pode ter sido por que o número de "musas olavettes" era bem restrito.
Nessa época, ouvi falar que essa moça era mestranda em História na Udesc, e que sua orientadora havia decidido que não queria mais orientá-la. Não acompanhei o que aconteceu, se a aluna encontrou outro orientador ou se saiu da Udesc. Até que me chega a notícia do processo.
Parece que não é bem assim. Não é exatamente que a aluna está processando a professora (que era também sua orientadora) por lecionar aulas de feminismo. Está processando por danos morais e materiais por perseguição ideológica, doutrinação e intimidação. A professora processada é comprometida e respeitada, e várias entidades, como o Departamento de História da Udesc, a Andes (Sindicato Nacional de Docentes do Ensino Superior), a Anpuh (Associação Nacional de História), e o Instituto de Estudos de Gênero da UFSC, lançaram notas públicas em defesa da professora. Registro aqui toda a minha solidariedade a Marlene De Fáveri.
Post do idealizador do Escola
Sem Partido
Não precisa ser um gênio pra saber quem está por trás disso -- a Escola Sem Partido, conhecida por nós professores como Lei da Mordaça. Mesmo tendo o Congresso mais conservador de todos os tempos a seu dispor, o movimento reaça está enfrentando dificuldade em aprovar leis que proíbam a doutrinação da "hegemonia esquerdista" nas escolas e universidades. Até agora, estão levando uma lavada nas enquetes públicas sobre o tema. Mas continuam na ativa: pedem que alunos levem exemplos de professores doutrinadores, numa legítima caça às bruxas. 
Ano passado, falei de uma deputada cristã que pediu "providências legais" contra um professor de uma escola em Brasília. Ele havia solicitado aos seus alunos do segundo ano do ensino médio um trabalho sobre homofobia. Para a deputada, discutir homofobia equivale à doutrinação. 
Bolsonaro e seus seguidores expõem professoras há anos (é só ver o que ele fez contra Tatiana Lionço, chegando a editar uma palestra). A onda agora, cada vez mais frequente, é gravar o que professores falam em aula para expô-los, totalmente fora de qualquer contexto, a uma turba previamente programada para odiar quem e o que vão ouvir.
Lógico que a aluna processando a professora diz que está sozinha, que é um ato independente. É a narrativa que a direita adora, de uma pobre aluna desamparada lutando contra universidades e sindicatos comunistas. 
O fato é que em fevereiro ela foi chamada para contar o seu caso na Câmara dos Deputados. 
Sob os olhares atentos de Marco Feliciano, Eduardo Bolsonaro e outros reaças, a moça mente na cara dura ao dizer que alunos a denunciaram à orientadora por ela (a aluna) ter fotos na internet com sua família e alguns versículos da Bíblia. No próprio email que a aluna lê da orientadora fica claro que não foi por isso que ela foi "denunciada" (sério, alguém consegue imaginar colegas mandando email pra uma professora universitária porque uma orientanda tem fotos da família e versículos da Bíblia?), e sim por falar um monte de asneiras anti-feministas. No email que a aluna lê, a professora diz: "Você tem todo direito de ser anti-feminista ou conservadora, mas não combina com esta pesquisa [que você está fazendo]". 
Toda a fala da aluna tenta levar a crer que ela foi perseguida por ser cristã, apesar de não haver nada no que ela mostra que prove isso. Ela usa imagens tiradas do DCE da Udesc (que não tem qualquer relação com a professora) como "provas" da mentalidade anti-cristã e esquerdista. E se indigna que tenha que aceitar uma "hipótese" (o feminismo?) antes de ser comprovado. 
Ahn, o feminismo não é uma hipótese. É um movimento cultural e acadêmico de suma importância, provavelmente o maior movimento revolucionário do século 20. Tem uma vasta produção acadêmica -- internacional, interdisciplinar. Se uma aluna (ou aluno) procura uma professora (ou professor) desta linha de pesquisa para orientá-la, ela terá que se basear no amplo arcabouço teórico desta área. É assim em qualquer área. Se a pessoa vai fazer mestrado em, sei lá, genética, ela terá que ler livros e artigos sobre o tema. Seria ridículo fazer vídeos nas redes sociais sendo chamada de "doutora" para falar contra a genética. 
Eu consigo imaginar o que aconteceu. Uma aluna passa no mestrado e a professora, sem saber nada da aluna (a aluna, pelo contrário, sabe a linha de pesquisa de cada professor), aceita orientá-la. Uma semana depois, estudantes começam a enviar links pra orientadora perguntando "Você sabe o que uma de suas orientandas fala publicamente?". É o horror, porque essa aluna vai sair por aí com um diploma da Udesc chamando Simone de Beauvoir de "nazista e pedófila" e ensinando que Hitler era esquerdopata. Nenhum orientador no universo quer estar associado a alunos ignorantes, porque é o seu nome que está em jogo. E orientadores têm todo o direito de dispensar orientandos (e vice-versa: alunos também podem pedir troca de orientadores, apresentando justificativas). 
É complicado. Mas o fato da universidade ser pública não quer dizer que pode qualquer coisa. Dou um caso real. Um reaça se inscreveu num curso à distância sobre Raça e Gênero na Universidade Federal de Mato Grosso. O aluno foi tão mal educado, machista, racista e "inconveniente" (pra usar um eufemismo), que causou um grande número de evasões. As demais alunas simplesmente não queriam ficar na mesa sala (mesmo à distância) que o mascu. E a coordenadora do curso não podia expulsar o aluno. Finalmente, as professoras se aproveitaram das inúmeras queixas do aluno (porque ele ainda reclamava por não ser escutado), e "aceitaram sua saída" (aí o cara fez um blog mascu e escreveu quinhentos posts contra mim, sem exagero. Foi assim que fiquei sabendo dessa história). 
Quer um outro caso? Este aconteceu no final do ano. Um mascu tem um chan, e nesse chan ele promove ações contra várias pessoas, principalmente feministas e esquerdistas. Há inúmeros boletins de ocorrência em todo o Brasil contra o sujeito, mas, como o chan é anônimo, criptografado, hospedado na Malásia, é difícil provar que o autor é ele, embora toda a polícia saiba que é. Em novembro, uma das vítimas do chan foi um professor de uma universidade federal no Paraná. Esse professor trocou alguns tuítes comigo, e por conta disso teve seus dados pessoais expostos e recebeu várias ameaças de morte e estupro contra sua filha de doze anos. 
Pois bem, o dono do chan onde grande parte dessas ameaças foram orquestradas se inscreveu para entrar no mestrado do mesmo curso (Ciências da Computação) e universidade do professor que estava ameaçando. Participou da seleção de mestrado, e só não passou porque um outro professor (o professor que estava sendo ameaçado não estava na comissão) decidiu ver o currículo Lattes dos candidatos online (não impressos). E assim que digitou o nome do criminoso, veio toda a ficha corrida dele. Imagina que beleza se o mentecapto passa no mestrado e solicita como orientador o professor que estava ameaçando. 
Deve haver limites. A internet muitas vezes é um palco aberto e iluminado para vários tipos de fascistas malucos, mas a universidade não pode ser assim. 

terça-feira, 28 de março de 2017

CARTAZES FABULOSOS DE MANIFESTAÇÕES COXINHAS

O cartaz acima, visto numa manifestação reaça em Belo Horizonte (pensei que no último domingo, mas parece que o protesto mais recente foi um completo fiasco -- em Brasília, tinha mais policial do que gente pra tirar selfie com eles), é um primor da blasfêmia.
E uma das notícias ressuscitadas hoje, sobre como o prefeito de São Paulo, João Dóriase valeu de transações ilícitas nas Ilhas Virgens para comprar um apartamento em Miami, me lembrou de um cartaz fascinante visto em alguma manifestação do ano passado. 
É aquela lenda de que rico é honesto porque não precisa roubar. De fato, precisar, não precisa...

segunda-feira, 27 de março de 2017

SE VOCÊ CONHECE UM CHAN, VOCÊ CONHECE TODOS

Pessoas queridas, hoje estou sem tempo para escrever um post, mas queria recomendar um longo artigo do escritor e autor de histórias em quadrinhos Dale Beran que a Folha traduziu e publicou e que um monte de gente me recomendou. É sobre a criação e a ideologia do 4chan (e dos chans de maneira geral). 
Como diz Beran: "O mundo real, acima do porão da casa de suas mães, era o lugar onde eles não davam certo -- talvez um lugar que eles não entendiam. [...] Era uma cultura que celebrava o fracasso". 
Para quem nem sabe o que é um chan (um fórum anônimo em que os arquivos são deletados com frequência), vale a pena ler para entender esse fenômeno. 
Para quem, como eu, conhece chans (ou pelo menos o chan que mais me ataca e ameaça) muito mais do que gostaria, é uma oportunidade para conhecer melhor a origem de um dos maiores chans.
Episódio da série The Good Fight
O artigo fala do primeiro protesto desses "anões" (como eles próprios se chamam, derivado de anônimos), contra a cientologia, "pelo lulz" (tudo nos chans é para "gerar risadas", principalmente ameaçar mulheres de estupro), do GamerGate, de como um loser como Milo Yannopoulos (destruído recentemente num episódio da ótima série The Good Fight, uma continuação de The Good Wife, sem Alicia) é a personificação dos chans, e da ligação deles com Trump: 
"Era como se todos esses jovens descontentes estivessem à espera de uma figura que, não tendo realizado nada na vida, fazia de conta que tinha realizado tudo; alguém que, usando as ferramentas da fantasia, podia transformar sua derrota (no jargão do 4chan, 'fail') em uma vitória ('win'). [...] O comportamento incompetente, errático e ridículo de Trump é o pilar em que se apoiam seus partidários mais jovens. [...] A natureza burlesca [de Trump, e vale também para Bolsonaro] não parece ser uma desvantagem; pelo contrário, para seus apoiadores, é um trunfo. [...] 
"Os eleitores de Trump votaram no vigarista, no labirinto sem centro, porque labirinto sem centro é como eles se sentem. Um labirinto sem centro é a descrição perfeita do porão da casa da mãe deles, com um terminal de computador a partir do qual mergulham numa sequência interminável de mundos de fantasia escapista". 
Beran descreve os channers (muitos são mascus) com exatidão: "É preciso entender esse grupo como pessoas que fracassaram no mundo real e se refugiaram no mundo virtual. São homens sem emprego, perspectivas na vida e, por extensão, sem namoradas. [...] Em consequência de seu fracasso, o conceito distante e abstrato de mulheres de carne e osso provoca neles sentimentos de humilhação e rejeição". Incrível como, se você conhece um chan, você conhece todos
É um artigo muito interessante. Diz que a única solução que a direita tem para oferecer a esses homens que moram nos porões de suas mães (e, ao mesmo tempo, chamam as mulheres de vadias, interesseiras e parasitas) é "Continuem a se isolar". Mas também diz que a esquerda não oferece nada pra eles, além de insistir que o problema deles não existe. 
Beran conclui: "A esquerda não deve ficar paralisada e em choque diante dos deploráveis. Deve enxergá-los como sintoma de um problema maior, que só ela pode resolver". 

domingo, 26 de março de 2017

NEGRITUDE DA TERRA DA LUZ EXISTE E RESISTE

Ontem, 25 de março, foi o dia da Data Magna do Ceará, que marca o fim da escravidão no Estado. 
O Ceará foi o primeiro a abolir a escravidão no Brasil, em 25 de março de 1884. 
Reproduzo o lindo texto escrito por Giselle Marçal, professora de História em Acaraú, Ceará, militante do Juntos Negras e Negros. O texto foi publicado no Juntos!

A data magna 25 de março, marco do pioneirismo cearense na abolição da escravidão, é um chamado para que a “terra da luz” não deixe apagar a chama que levou tantos Dragões de nossos mares a se organizar, lutar e a resistir à exploração branca e europeia, que visivelmente legitimadas no passado, ainda permanece através da falta de ações reparatórias contundentes para a população preta e das manifestações de racismo que nosso povo vivencia cotidianamente em vários espaços na sociedade atual.
Por muito tempo a história do Ceará deixou entrever o mito de que no nosso território não havia escravidão. Diante destes discursos, visualizamos o quão importante é esta data para a luta da negritude cearense, de modo a descontruirmos a dita cordialidade branca que toma de assalto há séculos nosso protagonismo e nossas memórias. Estas ideias estão presentes hoje quando o jovem negro morre na favela e é taxado de “meliante” ou “vagabundo”; estas ideias estão presentes hoje quando o corpo da mulher negra continua sendo objetificado, dando margem ao aumento do feminicídio preto. Estas ideias estão presentes hoje, quando não temos representação no governo, em sindicatos, em universidades. 
Estas ideias estão presentes hoje quando Temer nos ataca cotidianamente com politicas públicas antipopulares e que só têm o único propósito de aumentar a desigualdade econômica-racial já existente. Por tudo isso já passamos e já estamos fartos!
É contra estas medidas que nossa geração preta quer ter voz e espaço! Vamos continuar reafirmando nossa história, vamos falar junto a José do Patrocínio e desenhar uma história da “Terra da Luz” preta! Vamos lutar como e por Dragão do Mar contra o conservadorismo, pois a luta anticapitalista é indissociável da luta antirracial.
Pelas nossas vidas pretas e por nenhum direito a menos, seguimos lutando!

quinta-feira, 23 de março de 2017

MAIS UM GOLPE DENTRO DO GOLPE: CÂMARA APROVA TERCEIRIZAÇÃO IRRESTRITA

Ontem, enquanto o país estava preocupado com a carne que come, o governo deu mais um golpe dentro do golpe: 
conseguiu que a Câmara dos Deputados aprovasse a terceirização irrestrita
Foi um placar apertado -- 231 votos a favor, 188 contra e 8 abstenções (uma delas de Jair Bolsonaro, que provou, mais uma vez, não dar a mínima pros trabalhadores; seu filho Eduardo votou a favor). 
Quem é a favor da terceirização tenta
confundir com esta mentira
O texto aprovado, na realidade, é de 1998, da época do nada saudoso FHC, que foi ressuscitado, mas não foi pra frente, em 2015. É um velho sonho dos empresários: acabar com as leis trabalhistas que, segundo eles, emperram o país (leia-se "limitam os lucros", que já são escandalosamente altos. Ou você acredita que são só os impostos que encarecem os produtos?). 
A terceirização irrestrita significa que pode-se contratar alguém para "prestar serviços" (sem carteira de trabalho, sem férias, 13o, hora extra, nada) para qualquer atividade no Brasil. Por exemplo, uma escola e universidade tem como atividade-fim ensinar. Antes, ela podia contratar terceirizados para atividade-meio (como limpeza e segurança). Agora, vai poder até terceirizar professores!
Juízes e auditores não poderão ser terceirizados, mas praticamente todo o resto, pode. Isso quer dizer o quê? Diminuição ou até o fim da maior parte dos concursos públicos, pra começar. 
Além disso, o texto aumenta a duração do trabalho temporário de três meses para nove meses. Na prática, quer dizer que, depois de nove meses, uma empresa (pública ou privada) pode "liberar" seu funcionário e "chamar" outro, sem qualquer direito trabalhista. 
A "empresa-mãe" não deve nada a seu funcionário, já que quem o contrata é uma empresa terceirizada. E claro que pode haver subcontratações. A empresa-mãe pode contratar uma empresa de terceirização, que pode contratar outra, e outra... Cada empresa terá que ter seu lucro. O que sobra para o trabalhador? Cada vez menos
E se a empresa terceirizada que contratou o funcionário falir (ou alegar que faliu) e não pagar o salário, algo que é super comum? O funcionário vai reclamar com quem? Não com a empresa-mãe, que só utiliza a sua força de trabalho, mas não tem qualquer contrato com o trabalhador, só com a empresa que faliu. Vai pra justiça do trabalho? Então, o próximo passo do governo é fazer uma baita reforma trabalhista. 
Apesar da terceirização ser péssima para todos os trabalhadores, adivinhe pra quem ela é pior? 
Pras trabalhadoras, óbvio. Mulheres são as últimas a serem contratadas e as primeiras a serem dispensadas. Grande parte dos terceirizados já é mulher (e negra, e jovem). Pode crer que, onde há total precarização do trabalho, há mulheres sendo exploradas
O trabalho escravo tem grande relação com a terceirização: 82% das pessoas resgatadas do trabalho escravo vêm de empresas terceirizadas. 
Sem falar que a terceirização facilita bastante a corrupção. Um prefeito pode contratar uma empresa de familiares (em nome de laranjas) para fornecer funcionários. No mínimo, a terceirização pode proporcionar um trem da alegria sem freios.
Ser terceirizado é um terror. Qualquer empregado sabe disso. 
Não é montagem: golpistas veem fim
de direitos trabalhistas como vitória
Terceirizado é um trabalhador de segunda categoria. Raramente tem benefícios como vale-transporte, vale-alimentação, acesso à creche, plano de saúde. Seriamente: você conhece algum funcionário terceirizado que não preferisse mil vezes ser contratado com carteira de trabalho? O terceirizado ganha menos que o empregado contratado regularmente, trabalha mais horas, está mais sujeito a assédio moral e sexual e a cometer suicídio, sofre mais acidentes de trabalho. 
Quando manifestantes empunham faixas escrito "Terceirização: Escraviza, mutila e mata", eles não estão exagerando. Mas os números não são ruins pra todos. O dono de uma empresa de terceirização ganha três vezes mais do que paga ao funcionário terceirizado. 
Se você não é empresário, não tem como ser a favor da terceirização. Porque você vai sofrer, em qualquer categoria que você estiver. 
É tanto retrocesso que vai afetar todo mundo durante décadas que tudo que eu posso pensar é: o que o povo está fazendo que não está na rua protestando? Vamos mesmo deixar que nos roubem os direitos sem esboçarmos nenhuma reação?
Se você tem dificuldade para se situar, ou só sabe dizer "Chora mais" (quando em breve quem estará chorando será você também), recomendo dois documentários: Terceirizado, um trabalhador brasileiro e Terceirização: a bomba-relógio. Nunca é tarde para começar a lutar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

MINHA SOLIDARIEDADE A EDUARDO GUIMARÃES

Eu não gosto do blogueiro Eduardo Guimarães. Nunca gostei, não gosto do seu estilo, vi o sujeito ser machista algumas vezes. Mesmo que nós dois sejamos de esquerda, ele também não gosta de mim (num dos Encontros de Blogueiros Progressistas, segundo me contaram, ele reclamou por eu ter sido convidada). Mas seu Blog da Cidadania, que existe há mais tempo ainda que o meu, é um blog relevante da esquerda.
Ontem a Polícia Federal, a mando do juiz Sérgio Moro, deu ordens de condução coercitiva e busca e apreensão. Às seis da manhã, bateram na porta de Eduardo, em SP, e o levaram à delegacia. Confiscaram todos os seus equipamentos eletrônicos e também o celular da esposa. Eu não preciso gostar de Eduardo para saber que isso é completamente errado.
Ano passado, Eduardo havia publicado em seu blog a informação de que Lula seria alvo do Lava Jato. A polícia quis saber quem passou essa informação. Eduardo negou-se a revelar a fonte. A sua prisão ontem -- perdão, "condução coercitiva" -- fere o direito constitucional do sigilo à fonte, garantido a todos os jornalistas, com ou sem diploma (Eduardo não tem diploma e é comerciante, além de blogueiro). 
A nota da Justiça Federal do Paraná justificando a ação da PF é impressionante. Ela nega ter violado qualquer direito constitucional do blogueiro porque, segundo o que a Justiça decidiu, o blog de Eduardo não seria um veículo jornalístico, e sim um "veículo de propaganda política". Quando li isso, não acreditei. Pensei: só porque o cara apoia partidos de esquerda, o blog dele é de "propaganda política"? Sob essa ótica, todos os noticiários da grande mídia seriam "veículos de propaganda política", já que eles também têm lado. 
Mas não. A justificativa para negar a Eduardo o rótulo de jornalista e, assim, negar-lhe direitos, é que o blogueiro foi candidato a vereador pelo PCdoB-SP em 2016. Ele ter sido candidato e ter um blog faz de seu blog "veículo de propaganda política". Não é fascinante? Eduardo tem o blog há doze anos. Porém, como ele se candidatou a um cargo eletivo numa fração dessa dúzia de anos, isso invalida qualquer trabalho jornalístico que o blog tenha realizado. 
O que aconteceu é muito sério. Põe em risco a liberdade de todos nós. Afinal, só em ditaduras que as preferências políticas de cada um são levadas em conta para decidir quem tem ou não direitos. 
Portanto, mais importante do que qualquer picuinha ou divergência, é a ameaça que paira sobre todos nós, blogueiros independentes. Minha solidariedade a Eduardo Guimarães. 
UPDATE: É mesquinho, e emblemático, que jornalistas "de verdade" (aqueles com diploma) decidam quem é ou não jornalista
A ação de Sérgio Moro foi considerada tão arbitrária por qualquer pessoa com bom senso e que tenha apreço pela democracia que o juiz recuou: não investigará mais Eduardo.