sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

GUEST POST: É PRECISO PROTEGER AMPLAMENTE AS MULHERES

Ninguém ganha quando Atwood é condenada pelo #MeToo

João Paulo, graduando em Ciências Sociais, me enviou este post. Há alguns equívocos, e deixo pra vocês responderem. Certamente ele é uma pessoa bem intencionada e em processo de aprendizagem. Peço diálogo nos comentários. 

Margaret Atwood escreveu um artigo publicado no The Globe and Mail em janeiro que gerou revolta por parte de ativistas de esquerda, em especial as feministas. Em seu texto, a consagrada autora de O Conto da Aia e outros quinze romances, já no título começa com uma indagação provocativa, “Am I a bad feminist?” (sou uma feminista má?). Atwood cita o caso de um processo com falhas contra um ex-funcionário da Universidade da Columbia Britânica, acusado de agressão sexual, e que foi inocentado. Atwood lembra que todos devem ter direito à defesa, e acabou sendo acusada por algumas ativistas de ser uma traidora da causa feminista. Estaria Atwood equivocada no que discorre no artigo? Não. No entanto, é necessária uma reflexão sobre as agressões sexuais que mulheres sofrem durante toda a vida, desde a tenra idade até a fase adulta.
Antes de mais nada, não vou pedir licença como um homem que escreve um texto com teor feminista. Até peço desculpas por essa postura, no entanto me encontro numa posição que as mulheres também estão. Sou também vítima de um sistema patriarcal brutalmente opressor, pois desde muito cedo sofri todo tipo de humilhação por ser visto por não ter a postura masculina agressiva que se espera de garotos e adolescentes. 
Peço desculpas por não pedir licença porque é importante que o feminismo esteja aberto à fala do homem que sofre nas estruturas do patriarcado. O feminismo é uma mensagem poderosíssima que pede o essencial, a igualdade entre homens e mulheres. Essa igualdade que o feminismo nos fala é tão forte, que ela acaba transcendendo fronteiras e chega a todos aqueles sujeitos que igualmente são vítimas contumazes da opressão patriarcal. Preocupa que algumas feministas radicais não estejam abertas a dar voz para que homens gays e héteros e pessoas trans possam falar sobre temáticas feministas. Acabam afastando aliados. Homens e pessoas trans não podem lutar pelos direitos igualitários e reprodutivos das mulheres? 
É necessária uma certa fúria para combater o patriarcado, mas essa fúria não pode ser usada para afastar os que querem contribuir com o feminismo. Se os que querem contribuir são farsantes, como há muitos, então que sejam desmascarados. Mas se os que querem contribuir são coerentes em suas condutas com a luta feminista, então que possam participar dessa luta. De maneira alguma pode-se tirar das mulheres o protagonismo ou o pioneirismo na inauguração do feminismo, porque isso das mulheres nunca será tirado. O que questiono é se não se deve incluir no combate ao patriarcado aqueles que juntamente com as mulheres marcharão por uma sociedade digna e justa para todos os sujeitos. 
Dito isto, volto ao texto de Atwood, mas antes, disponibilizo outro link, este sobre matéria do New York Times. A matéria do jornal trata de todo tipo de agressão sexual que mulheres passam na linha de montagem de uma fábrica da Ford numa planta em Chicago. O retrato do que acontece em Chicago é o que se espalha em toda a indústria do colarinho azul nos Estados Unidos. E por que compartilhar a matéria do NYT? Para fazer contraponto ao texto de Atwood. 
É preciso dar direito de defesa aos homens acusados de assédio? Sim. É preciso dar aparato jurídico para as mulheres que sofrem agressão sexual? Sim, e ainda mais aparato que aquele que podem desfrutar os homens. E por que mais aparato? Porque mulheres, ainda enquanto garotas na infância, começam a sofrer agressão, e para elas desde cedo é reservado o lugar de aceitarem o que lhes acomete. O machismo é de tal modo entranhado na sociedade que mulheres por toda vida encararão o marcador do gênero. 
No patriarcado o papel designado às mulheres é antes de mais nada a subalternização. Como mulheres são tratadas como inferiores, lhes é reservado acatar silenciosamente todo tipo de abuso que sofrem, e se algum dia resolverem falar sobre as agressões sexistas que enfrentam, suas palavras de pronto serão desacreditadas, porque para o patriarcado a mulher não é um ser digno de humanidade, e sim um objeto sem qualificação, com a única tarefa de servidão eterna ao homem. 
Parece ser este o objetivo dos assediadores das mulheres na planta da Ford, por exemplo: fazer com que parem de trabalhar, porque o trabalho pode-lhes dar em algum grau aquilo que o patriarcado tem pavor -- independência financeira. Essa independência pode ser crucial, pois a mulher ter controle de suas finanças as põe num pé de igualdade perante os homens. É por isso que se paga salários tão baixos as mulheres. É uma forma de intimidação para que a mulher continue a se sujeitar ao homem, fazendo-a voltar à posição que o patriarcado lhes enquadra, a serventia do lar.
Atwood está certa ao pedir direito amplo de defesa aos acusados de assédio, mas existe um problema nisso. Como conceder amplo direito aos acusados se para as mulheres desde cedo lhes é negado qualquer tipo de direito? É partindo desse ponto que devemos tratar do direito à defesa entre homens e mulheres, porque a estas estão reservadas as  desacreditadas estruturas patriarcais, enquanto que para aqueles desde o nascimento lhes é dado todo direito de violência contra as mulheres. Não há como tratar homens e mulheres igualmente sem reconhecer que no nascedouro patriarcal existe uma abissal desigualdade entre os gêneros. 
Enquanto que para os homens é estimulado o assédio contra as mulheres, para estas é reservada a aceitação desse assédio. Porque para o patriarcado é assim que o organismo de seu sistema sobrevive, com a violência sistêmica da masculinidade contra tudo aquilo que não é masculino. Cabe às mulheres e aos homens comprometidos com a luta feminista o engajamento para que tenhamos direitos iguais. Mas enquanto mulheres continuarem sendo desacreditadas ao falarem só porque são mulheres, é impossível avançar na equidade civil e política. 
Longe de mim, um simples estudante universitário com muito a aprender, querer rebater uma consagrada autora do calibre de Atwood, até porque concordo com o que ela defende no artigo. O que me refiro é como alcançar equidade de direito de defesa entre homens e mulheres se as mulheres estão numa condição de vulnerabilidade. É por isso que o feminismo apavora o patriarcado. 
Ao dar à mulher uma humanidade que lhe é negada, o feminismo é poderoso instrumento para enterrar toda a artificialidade em que está assentado o patriarcado. O feminismo prova que não há absolutamente nenhuma superioridade do homem sob a mulher. E elimina todo o patriarcado, ao evidenciar que um sistema em que a todo instante o homem precisa provar sua masculinidade através de estruturas opressoras, só comprova que toda essa estrutura é uma farsa. E como a farsa que é, seu desmonte é possível, para que os diferentes sujeitos na sociedade possam viver felizes em sua plenitude humana dignificadora. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

DA SÉRIE ROLA CURA TUDO

O cartum reaça de autoria desconhecida mostra uma das contradições dos misóginos que odeiam feministas (redundância, eu sei: todo misógino odeia feministas). Somos mal amadas e mal comidas ou putas e promíscuas? Seria bom se os anti-feministas se decidissem. 
Mas obviamente reaças são tão falocêntricos que acham que rola cura tudo, até câncer (quiçá até impotência?). Até peito caído. Viram, moças? Se os seios não estão mais tão firmes (e alguns homens parecem ter um sério problema com isso), não precisa de plástica! Basta transar com um homem bem machista. Opa, vocês já fizeram isso e não resolveu? 
Rola parece curar tudo, menos a ignorância suprema dos reaças. Se rola fosse remédio contra todos os males do mundo, eles, portadores de rola, não teriam qualquer problema. E vou te contar: problema é o que esses tipinhos mais têm.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

AJUDE A COMUNIDADE TRANS NA ESCÓCIA

Recebi este email do James. Vamos ajudar, pessoal?

Meu nome é James. Eu sou um homem trans brasileiro que mora na Escócia há 10 anos (e faz uns 7 que leio teu blog). Eu trabalho para uma ONG nacional LGBT chamada Equality Network. Nos últimos anos, fomos responsáveis pela campanha que levou à implementação do "Equal Marriage" -- casamento para pessoas do mesmo sexo aqui. Agora nossa principal campanha, junto com nossa ONG-irmã Scottish Trans Alliance (dividimos o mesmo escritório, e a STA começou como parte da Equality Network antes de se tornar sua própria organização), é sobre "Legal Recognition" (Reconhecimento Legal) para pessoas trans e não-binárias. 
Por causa da nossa campanha por Legal Recognition, o governo lançou uma consulta para atualizar as leis sobre mudança de nome e gênero de pessoas trans. Até pouco tempo, nós éramos o melhor país em termos de acesso aos processos de transição, mudança de nome, etc. Agora que Argentina, Malta e Dinamarca colocaram leis ainda mais simplificadas que a nossa, nós temos um bom argumento para pedir por mudanças (a lei atual é de 2004).
Porém, logo que a consulta começou, a mídia conservadora dos tabloides caiu em cima e começou uma campanha contra as propostas. E um monte de gente transfóbica está respondendo à consulta. Se tivermos mais respostas negativas do que positivas, vai ser muito difícil para o governo (mesmo um que está do nosso lado como esse do Scottish National Party, que é centro-esquerda e não exatamente nacionalista do jeito que o nome sugere) implementar qualquer mudança. E pior, isso pode dar forçar para os conservadores tentarem tirar os direitos que já temos (ainda mais com o governo do Reino Unido sendo de direita). 
Nós precisamos de toda a ajuda que pudermos para mandarmos respostas positivas (a consulta é aberta pro mundo todo). Mas é só até o dia 1o de março.
Coloco aqui uma tradução simplificada da consulta. 
A comunidade trans da Escócia precisa da sua ajuda!
O governo escocês abriu uma discussão pública para atualizar a legislação em torno da mudança de nome e gênero para pessoas trans. As propostas para a nova legislação em sua maioria seguem as recomendações da maior organização trans do país (a Scottish Trans Alliance, ou STA). A STA passou anos trabalhando com o governo para colocar essa proposta de nova legislação em pauta. 
Porém, como se trata de uma discussão pública, assim que a mídia começou a falar no assunto, uma onda de gente transfóbica do mundo todo vem tentando tomar conta da discussão, enviando respostas negativas para impedir essa reforma (ou até mesmo para tentar fazer a legislação atual regredir). 
Precisamos de mais gente disposta a nos ajudar a virar esse jogo. A consulta aceita respostas internacionais. Respondam e compartilhem para mostrarmos ao povo transfóbico que a gente também sabe se mobilizar e estamos unidos para avançar nossos direitos.
Se acontecer das respostas negativas forem muitas, é possível não só que a reforma não vai acontecer, como também criará uma situação em que o governo conservador do resto do Reino Unido (a Escócia tem autonomia para algumas áreas de sua legislação, e o governo daqui é bem mais progressista) vai ter sua desculpa para qualquer outra mudança - ou até mesmo implementar medidas contrárias ao que queremos. Considerando que estamos em uma situação internacional relativamente favorável, ver o Reino Unido regredir pode ter um efeito similar ao da a vitória do Trump nas eleições dos Estados Unidos e a bagunça do Brexit: a minoria conservadora barulhenta ganha forças e fica ainda mais barulhenta e agressiva, criando um efeito dominó que pode ameaçar direitos de pessoas trans muito além das nossas fronteiras.
A discussão pública é uma enquete online com espaço para deixar comentários. Você não precisa responder todas as questões, e comentários também são opcionais. Está em inglês, mas quem não entende muito pode seguir a orientação da tradução/ explicação abaixo:
O link para a enquete é este aqui.
Respostas só serão aceitas até dia 1 de março, duas da tarde, horário de Brasília.
As perguntas mais importantes são estas:
- A primeira pergunta é sobre o reconhecimento legal de seu nome e gênero. No momento, a mudança de nome e gênero em si é bem fácil (é só fazer uma declaração assinada por um juiz, de graça). Com essa declaração, a pessoa pode mudar todos os seus documentos, menos a certidão de nascimento. Para mudar a certidão, a pessoa precisa ter vivido com o nome por pelo menos 2 anos e enviar documentos provando sua situação para uma banca que decide se a pessoa pode ou não mudar sua certidão. A proposta é acabar com a banca e o tempo de espera - a declaração oficial seria suficiente. Responda AGREE ("concordo").
- A pergunta 5 é sobre deixar que pessoas de 16-17 anos possam mudar seus documentos sem precisar de autorização dos pais. No momento, apenas aqueles maiores de 18 anos podem mudar seu nome (é um processo bem mais simples que no Brasil, feito antes que qualquer mudança física como hormônios ou cirurgia). Responda AGREE ("concordo").
- A pergunta 6 dá várias opções para como proceder quando uma criança menor de 16 anos quer fazer mudança de nome (nenhuma criança ganha acesso a qualquer mudança física. Mesmo acesso a bloqueadores de hormônio na puberdade são difíceis de conseguir. Essa proposta quer apenas permitir que crianças usem o nome e gênero com o qual se identificam na escola, no sistema de saúde, e em qualquer outro aspecto de sua vida pública). A opção que recomendamos é a opção 3: PARENTAL GUIDANCE (orientação dos pais). 
- A pergunta 12 é sobre dar reconhecimento legal de gênero a pessoas não-binárias. Responda YES (sim).
- A pergunta 13 detalha as medidas para implementar esse reconhecimento legal de pessoas não binárias. Nossa recomendação é escolher as opções 1, 3, 4 e 6. 
Opção 1 é "mudanças em formulários" para incluir uma nova categoria. Opção 2 é criar um livro para registrar as pessoas não-binárias (o que por si só não faz mais nada). Opção 3 é mudar documentos, criando uma opção de gênero X para quem não se identifica com M ou F. Opção 4 é fazer o mesmo sistema de auto-declaração de gênero do que o proposto para outras pessoas trans. Opção 5 seria uma promessa de que o governo faria inclusão non-binária gradativamente. Opção 6 é incluir pessoas não-binárias explicitamente na lei anti-discriminação (no momento ela só fala de "idade de gênero" sendo uma característica que não pode ser discriminada). Opção 7 é "sem mudanças".
E pra quem quiser responder o resto:
- A pergunta 2 quer saber se a pessoa deveria fazer uma declaração afirmando que quer viver em seu "gênero adquirido" (tradução literal) pelo resto da vida. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 3 é sobre criar um limite para o número de vezes que uma pessoa pode fazer esta declaração de mudança de nome/gênero. Vale salientar que no momento este limite não existe, e não consideramos uma boa ideia implementá-lo. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 4 quer saber se, caso implementarmos esse novo sistema simplificado para mudança de nome, quem poderia utilizá-lo. As opções são A - para quem nasceu ou foi adotado na Escócia, e quem mora aqui; B - para todo mundo; ou C - Não sei. Recomendamos a opção B, pois ela permitiria que turistas e outros visitantes tivessem seu gênero e nome reconhecidos no país, independente do nome e gênero oficial no passaporte. Isso não só é bom para quem não pode ainda fazer essa mudança em seu país de origem, mas também faz com que a pessoa fique enquadrada nas leis de anti-discriminação e crime de ódio. 
- A pergunta 7 quer saber se a pessoa trans pode fazer o processo de reconhecimento legal de seu nome e gênero sem a autorização de seu cônjuge. A legislação no momento permite que casais do mesmo sexo entrem em uniões civis ou casamentos, mas casais de sexos diferentes só podem fazer o casamento. Por isso, se uma pessoa casada precisa mudar seu gênero, talvez seja necessário mudar também o tipo de casamento/união civil. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). A recomendação é votas No, porque nenhum adulto deveria depender de outra pessoa para poder ter sua identidade reconhecida.
- A pergunta 8 quer saber se casais de sexos diferentes poderiam ter uniões civis também (pra que pessoas trans não precisem mudar seu tipo de casamento). Vale salientar que aqui "casamento" é muito mais ligado a religião e igreja que no Brasil. O casamento "civil" do Brasil não parece ser uma opção muito difundida, e se parece muito mais com a união civil dos casais de mesmo sexo. Por isso muita gente (não só trans) campanha para abrir essa opção de união civil pra quem quiser, independente de gênero. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 9 é sobre se a mudança de gênero deveria deixar de ser uma "razão para divórcio". As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 10 é sobre privacidade e proteção de informação. 
No momento, a mudança de nome e gênero é considerada "informação protegida", ou seja, não pode ser divulgada publicamente sem autorização (a não ser em casos especiais, tipo investigação policial). Basicamente, "deixar escapar" que alguém é trans é crime. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). Recomenda-se optar por No, já que essa parte da legislação já é boa.
- A pergunta 11 é sobre reconhecimento de outros processos de mudança de gênero feitos fora da Escócia. No momento, pessoas trans que fizeram seu processo fora daqui não tem esse processo automaticamente reconhecido pelas autoridades escocesas (precisam fazer a parte de mandar seus documentos para a banca se quiserem ter esse reconhecimento). A pergunta é se o governo deveria reconhecer outros processos automaticamente quando alguém vem para a Escócia. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). Votem Yes, por favor...
- A pergunta 14 quer saber se você sabe de alguma outra consequência legal desse reconhecimento de pessoas não-binárias. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- As perguntas 15 e 16 são do tipo "se você tiver mais informações e algum outro comentário". 
A comunidade trans da Escócia agradece sua colaboração! 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

MÃE, ME EMPRESTA SÓ 25 REAIS PRA EU PARTICIPAR DO BOLÃO DA LOLA?

Estou muito, muito feliz que Lady Bird - A Hora de Voar está concorrendo a melhor filme no Oscar, e mais ainda que Greta Gerwig, sua jovem diretora, foi lembrada para a categoria de melhor diretora (ao contrário dos Golden Globes). 
Mas, pra ser franca, eu não entendi os aplausos todos pra esse drama/comédia. Não é que eu não tenha gostado do filme. Só não achei tudo isso que tanta gente falou. Afinal, ele está em quase todas as listas dos melhores de 2017.
A primeira vez que ouvi falar dessa produção independente foi através da notícia de que -- fato inédito -- um filme havia conseguido a nota perfeita de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes (em dezembro, o encanto foi quebrado. Depois de 195 críticas positivas, um mísero crítico não gostou da trama). 
Eu incluí Lady Bird no cronograma do meu curso de extensão (só pro segundo semestre), então espero que minhas alunas e alunos, sempre tão inteligentes, me expliquem o que o filme tem de tão excepcional. Talvez o que eu menos tenha entendido foi a decisão de Greta (também roteirista) de passar a história em 2002. É, por assim dizer, um filme de época. Mas faria alguma diferença se a trama acontecesse hoje?
Ah, aproveitando, em breve vou publicar um post com o cronograma pro meu curso de extensão deste semestre. Mas quem mora no Ceará e pode se dar ao luxo de comparecer à UFC (CH1, campus Benfica) a cada quinze dias, sempre às terças, das 11:30 às 13:30, já está convidadx a fazer o curso Discutindo gênero através de literatura e cinema. Pra se inscrever, é só me mandar um email com o tópico "curso de extensão" e seu nome completo. A primeira aula será dia 13 de março.
A diretora Greta Gerwig e sua
estrela Saoirse Ronan
E, ahn, voltando ao título do post, eis o convite para você participar do meu tradicional bolão do Oscar, em sua 30a edição (ou décima vez no blog). Pro bolão pago você precisa pagar R$ 25, que devem ser depositados numa das minhas duas contas (Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760, ou R$ 28 no PayPal aí ao lado). Daí você tem que me enviar um email com comprovante  pra mim e pro Júlio (lolaescreva@gmail.comjcaoalves@gmail.com), e fazer suas apostas  aqui. Quem acertar mais categorias leva todo o montante arrecadado. Se houver empate, o prêmio é dividido.
Pra participar do bolão grátis é só apostar diretamente aqui. Não precisa pagar nada, mandar nada. É super rápido e fácil. Mas é só até as 23h59 do dia 2 de março (não esta sexta, mas já a próxima!). 
Vamulá, pessoas queridas, participem!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

POR QUE HÁ POUCAS MULHERES NA POLÍTICA?

Foi uma bonita coincidência. Poucos dias depois da cientista política Débora Prado me mandar um email me convidando pra participar do Chutando a Escada (gravamos o podcast na sexta; quando for ao ar eu aviso a vocês), várias pessoas me enviaram um link para uma thread que Débora fez no Twitter sobre a baixa participação feminina na política. 
(Coincidência maior do que essa, só ontem, quando um potinho de curry abriu em cima da comida que eu estava preparando pra semana, e quando eu fui ver no Twitter, o que tinha nos Trending Topics? Curry! Pensei: deve haver uma câmera escondida aqui em casa, só pode. Mas logo me avisaram que os TT eram referentes a um jogador de basquete). 
O que a Débora escreveu no Twitter foi tão memorável (ela havia participado recentemente de um podcast da NBW sobre o tema) que eu decidi fazer uma compilação dos tuítes e ir atrás das referências. Só depois vi que ela já tinha feito isso na sua página no FB. Publico aqui o que ela escreveu tão bem. 
E lembrem-se: neste ano eleitoral de 2018, vamos votar em mulheres!

Como sabem, participei do Podcast NBW (Nós Brigamos no War) do Ulisses Neto e André Pontes. Falamos sobre o papel da mulher na política, com foco no Brasil e Inglaterra. Surgiram alguns questionamentos importantes, alguns no grupo do próprio podcast, outras no twitter do Chutando a Escada. Muitos não merecem resposta, mas um deles achei que merecia. O rapaz afirma existir uma diferença nas livres escolhas individuais entre homens e mulheres e esse, e não o machismo, seria o fator mais importante para a baixa participação de mulheres na política.
Gráficos do site Politize-se
Compartilho com vocês, então, algumas notas sobre isso. No caso brasileiro, acredito ser obrigatório levar em consideração alguns dados antes de considerarmos o contexto no qual o debate sobre a desigualdade de gênero na política está inserido. Segundo dados compilados pela Inter-Parliamentary Union no Brasil, pouco mais de 10% dos deputados federais são mulheres. A lei 9.504 de 1997, que foi reformulada em 2009, busca enfrentar parte desse problema e estabelece uma cota de pelo menos 30% de vagas reservadas para as mulheres. 
Apesar disto, nas ultimas eleições municipais em 2016, as mulheres conquistaram menos de 15% das vagas: isso significa que para cada 7 vereadores temos 1 vereadora.
Quais são as causas deste processo? Para refletirmos sobre isto é preciso se questionar antes de mais nada se as mulheres competem nas mesmas condições que os homens. A resposta é um sonoro NÃO.
Clique para ampliar
Por exemplo, a lei destina apenas 5% dos recursos para as candidatas. As mulheres não têm acesso ao dinheiro dos partidos e, como óbvia consequência disso, elas não conseguem acessar o mesmo numero de eleitores. O único partido que oferece uma distribuição mais igualitária aqui no Brasil é o Partido Rede.
Superada a questão financeira, que certamente coloca em xeque o entendimento de que x eleitorx fez a sua escolha livremente e sem "interferências", temos o problema das fraudes eleitorais que têm sido investigadas pelo TSE: mulheres são inscritas apenas para cumprir a lei. 
São, portanto, laranjas. Não há candidatura na verdade e muito menos a possibilidade delas serem eleitas ocorre na realidade.
Agora, a questão mais estrutural. Historicamente, socialmente e culturalmente a mulher está destinada ao espaço privado, não o público. A política é vista como um ambiente masculino e não seria um lugar para mulheres.
Não sou eu quem faz esta afirmação. Diversas pesquisas tratam desta problemática. Sobre este entendimento de que o preconceito tem pouca influencia na questão de gênero, uma pesquisa realizada por Cecilia Hyunjung Mo e publicada no Status on Women in Politics conclui que eleitores podem simultaneamente ter opiniões explicitamente igualitárias e, ao mesmo tempo, abrigar uma tendência implícita contra as mulheres.
De acordo com pesquisa realizada pela autora, “voters who expressed a preference for male leadership did not support fictitious female candidates — even when the female was more qualified than the male candidate” (eleitores que manifestaram preferência por liderança masculina não apoiaram candidatas mulheres fictícias -- mesmo quando a mulher era mais qualificada que o candidato homem).
O preconceito aparece de forma velada, mas tem impactos na escolha de candidatos. Levantamento recente realizado pelo Pew Research Center (2014) apresenta também esta contradição para o caso dos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que apesar de 74% dos homens e 76% das mulheres terem afirmado que homens e mulheres podem ser, igualmente, bons líderes políticos:
1) mais da metade das mulheres (47%) afirmaram que “a major reason there are not more women in top political offices is that female candidates are held to higher standards that men” (um motivo principal para explicar por que não há mais mulheres no topo da política é que candidatas mulheres são julgadas com critérios mais exigentes que homens);
2) 73% das mulheres entrevistadas afirmaram que é mais fácil para um homen ser eleito a um alto cargo político comparado a uma mulher;
3) 41% das mulheres afirmaram que “a major reason for the lack of women in top political offices is that many Americans aren’t ready to elect a woman to a higher office” (um motivo principal para a falta de mulheres no topo da política é que muitos americanos não estão prontos para eleger uma mulher para um cargo mais alto) e
4) "33% of women, compared with 21% of men, said that females getting less support from party leaders is a major reason" (33% das mulheres, comparadas a 21% dos homens, disseram que as mulheres receberem menos apoio de líderes dos partidos é um motivo principal). 
A definição de papéis específicos para a atuação das mulheres na política tem um efeito importante quando analisamos o desempenho de candidatas que almejam cargos mais altos em diferentes níveis de governo. O lugar destinado às mulheres está bastante relacionado com os estereótipos de gênero que reforçam um perfil específico. Por serem vistas como mais compassivas, gentis e passivas cabe às mulheres lidar com temas relacionados a questões sociais e educacionais, sendo descartada sua liderança em temas de política externa e segurança, por exemplo.
Cartilha para maior
participação das mulheres
na politica
Existem outros dados e pesquisas que caminham nesta direção. Infelizmente não é uma realidade brasileira. É global. Ocorre nos Estados Unidos, na Europa, nos países "desenvolvidos". A OCDE tem um levantamento sobre este tema também. Existem sim diferenças em termos partidários, mas não podemos ignorar que a mulher entra em desvantagem em uma disputa na política pelo simples fato de ser do sexo feminino.
O nome disto é patriarcado e uma das variáveis é o machismo. A consequência para este sistema é a exclusão das mulheres dos espaços de poder, dos espaços de decisão, e de outro lado, a objetificação da mulher, a inferiorização que abre caminho para as violências sofridas diariamente em nosso país, os abusos, o assédio, o estupro, os espancamentos e o medo de sair pela rua tranquilamente pelo simples fato de ser mulher.