sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

DESAFIOS PARA A ESQUERDA EM 2018: DERROTAR A ILEGITIMIDADE DE TEMER E A PROPAGAÇÃO DO ÓDIO DE BOLSONARO

João Paulo Jales dos Santos, graduando em Ciências Sociais, escreveu este ótimo texto para o blog.  

Foram duas denúncias contra Michel Temer em um curto espaço de tempo, quase três meses. A primeira, votada no início de agosto, acusava Temer de corrupção passiva e o colocava como primeiro presidente a ser denunciado por crime comum enquanto cumpre mandato. A segunda denúncia. votada no final de outubro, tinha como acusação os crimes de organização criminosa e obstrução de justiça. O mesmo congresso repleto de vigaristas da ética que golpeou Dilma Rousseff salvou Michel Temer. 
E essa é uma diferença crucial. Dilma foi deposta pelo Congresso mais imoral das últimas décadas da história moderna do país, já Temer foi salvo pelos gatunos que habitam o legislativo nacional. Se havia alguma dúvida sobre a permanência de Temer até o final de 2018, ela não mais existe. A aliança que o aboletou na Presidência, sem passar pelo crivo das urnas, juntando o alto empresariado, o oligopólio dos detentores da comunicação, uma direita raivosa por perder em 2014 e uma classe média ressentida com o avanço dos pobres e das minorias, manterá Temer incólume no poder central porque ele governa para o mercado, com aquela fúria do capitalismo radical, atendendo o interesse daqueles que o catapultaram à presidência. 
A esquerda tem um tremendo desafio para 2018: vencer uma eleição num cenário que seu capital político está fragilizado. O desafio é maior do que quando Lula foi eleito em 2002 e Dilma reeleita em 2014. Mas o desafio não é só vencer a presidência, é obter ganhos de assentos no legislativo nacional e nas assembleias estaduais, onde está o foco e a grande pressão de grupos ultrarreacionários para fazer avançar propostas conservadoras. 
A caminhada do campo progressista para 2018 terá início com o julgamento de Lula no TRF4 na quarta que vem (24 de janeiro). O resultado que sair do Tribunal desenhará a estratégia político-eleitoral que o PT tomará para o pleito presidencial. Lula e PT são as maiores forças da esquerda do país. Compreensível então que o debate sobre que direção tomará a esquerda gire em torno do ex-presidente e da legenda. No entanto, outros nomes da esquerda já apresentam pré-candidatura, preocupando o lulopetismo. Mas o que de fato significam os nomes de Manuela d’Ávila (PCdoB), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos na disputa de 2018?
Ciro Gomes é pré-candidato, de certa forma, desde que chegou em 2015 no PDT, mas sua postulação ganhou impulso com a atual situação jurídica de Lula, o mesmo que aconteceu com Manuela. Ambos são postulações estratégicas. Atendem do ponto de partida dois propósitos, angariar o apoio de Lula caso sua candidatura venha a ser inviabilizada e pressionar para comporem chapa com ele caso tenha condições jurídicas para tanto. 
Que não se dê muita atenção para falas que venham desmentir tais alternativas, porque tanto para Manuela quanto para Ciro as intenções são essas. Mudanças na estratégia de ambos devem ocorrer juntamente com o desenrolar do julgamento no TRF4. Reitero: toda a estratégia para o campo da esquerda se restringe ao que acontecer com a situação jurídica de Lula em conseguir ou não ser candidato. 
E Boulos? Ao contrário de Manuela e Ciro, que a depender do cenário podem vir a abandonar suas postulações, o coordenador do MTST, caso venha a sair candidato pelo PSOL, não depende de Lula estar ou não concorrendo. O PSOL, ao contrário do PCdoB e PDT, desde 2006, quando disputou a primeira eleição presidencial após a fundação partidária em 2004, apresenta candidaturas à presidência. 
O PCdoB desde 1989 coliga-se com o PT, e PDT faz o mesmo desde 2010. Portanto, o cálculo de ter Boulos ou não na disputa não passa necessariamente em Lula ser candidato, e sim da disposição de Boulos em sair candidato. Mesmo que Boulos recuse a proposta, o PSOL tende ter candidatura própria. Boulos na corrida presidencial impulsiona o PSOL a levar a cabo a forte agenda progressista que a agremiação promoverá no debate público. Uma esquerda unida em torno de uma única candidatura é uma possibilidade para o segundo turno, como ocorreu em 2016 no Rio Janeiro com Marcelo Freixo. A união já no primeiro turno têm chances remotas.  
Michel Temer ter uma candidatura para defender seu impopularíssimo governo significa fracasso certo nas urnas. Quem acredita no contrário são os arautos do mercado e a elite, que vive afastada da realidade do país. Certamente a arrumação será tensa, mas não é irrelevante a união da facção de Temer e o tucanato marchando juntos, só que sem Temer como figura de proa nos palanques Brasil afora. 
Já Bolsonaro, até agora, bateu cabeça para encontrar um partido para se lançar candidato, num ato que denota confusão e incoerência -- tudo aquilo que seus ignorantes asseclas acusam nos outros e que só confirma o engodo que é Bolsonaro. É ele a repugnante surpresa para 2018. Não que seja novo na política, muito pelo contrário, desde o fim da década de 80 o deputado federal exerce cargo eletivo. A surpresa é chegar onde chegou, igualmente como Temer. 
Bolsonaro não tem conteúdo, não possui nenhum projeto importante proposto e aprovado nos sete mandatos consecutivos na Câmara Federal, e à medida que sua candidatura avance, mais podres serão desvendados sobre sua vida pública. O propagador maior de ódio do país pegará carona na onda anti-PT, como fez João Doria. Bolsonaro, Temer e Doria são três figuras incompetentes, que estão onde estão somente por causa de um vazio sentimento de repulsa ao PT. 
Para a esquerda fica a reorganização de agora para as próximas décadas. 2018 é a oportunidade de planejar o futuro do campo progressista do país. Uma esquerda ativa que desmonte as falsas consciências, como já dizia Marx, das reformas trabalhista, previdenciária e da educação, e a PEC do teto dos gastos, que já não mais consegue mascarar a farsa que sempre foi. A vibrante agenda do combate à desigualdade para a promoção de se viver numa sociedade solidária passa pela organicidade do movimento de esquerda. Só com a força das bases e dos movimentos sociais avançarão os progressistas do Brasil. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O CASO AZIZ ANSARI, NOSSOS "NÃOS" E NOSSO EMPODERAMENTO

Fiquei decepcionada ao ver que um artista que eu admirava, e que se diz feminista, pisou na bola bonito. Estou falando do ator e humorista Aziz Ansari, da premiada série Master of None. Mesmo pra quem nunca ouviu falar nele, o caso que o envolve traz questões interessantes. Tanto que várias mulheres pediram pra eu falar nisso.
Foto que Grace tirou dos
dois nos Emmys
Bom, é o seguinte. Uma jovem fotógrafa, Grace (não seu nome real), conheceu Aziz numa festa de comemoração dos Emmy, no ano passado. Eles paqueraram um pouquinho, trocaram telefones, ele ligou pra ela, em Nova York, e eles marcaram um encontro no dia 25 de setembro. Foram a um bar perto do apartamento dele, em Manhattan, conversaram bastante, e, no final do jantar, Aziz parecia ansioso pra ir embora. Eles caminharam até o apartamento, ela subiu, e, pra ela, as coisas andaram rápidas demais. Eles se beijaram, se tocaram, fizeram sexo oral. Ela não estava confortável e, segundo ela, deu vários sinais que não estava interessada -- tirou a mão do pênis dele umas cinco ou sete vezes (ele a colocava de volta), parou de beijar, se esquivava.
Quando ele perguntou "Onde você quer que eu te f*da?", ela respondeu "Na próxima vez" e foi ao banheiro. Ao voltar, Aziz perguntou se ela estava bem. Ela disse "Não quero me sentir forçada porque aí vou te odiar, e prefiro não te odiar". Ele foi gentil e respondeu: "Ah, claro, só é divertido se for divertido pros dois". O problema é que suas ações não acompanharam suas palavras. Ele se sentou, apontou pro seu pênis, e fez um gesto de que queria sexo oral. E ela fez. Ele insistiu em transar, e ela disse: "Não acho que estou pronta, realmente não acho que vou transar". Então ele sugeriu assistirem um episódio de Seinfeld. Nesse momento, parando pra pensar, ela se sentiu violada.
Mensagens de texto
trocadas
Ele começou a beijá-la e apalpá-la de novo, e ela disse "Vocês homens são a mesma m*rda". Ela se levantou, disse que iria chamar um Uber, e foi embora. Chorou no elevador e dentro do carro, durante todo o trajeto até sua casa.
Na noite seguinte, Aziz mandou uma mensagem de texto pra Grace: "Foi divertido te conhecer ontem à noite". Ela respondeu: "Pode ter sido divertido pra você, mas não foi pra mim. Você ignorou sinais não-verbais claros, você continuou avançando. Quero ter certeza que você saiba para que talvez a próxima garota não tenha que chorar no caminho de casa".
Ele escreveu: "Fico muito triste em ouvir isso. Claramente, eu interpretei de forma errada as coisas no momento e peço muitas desculpas".
Esse foi o último contato que ela teve com ele. E aí, no Globo de Ouro, ela o viu ganhar o prêmio de melhor ator em comédia ou musical por sua série, e ele estava usando o pin "Time's Up", algo como "Chegou a hora", que várixs artistas usaram na cerimônia (junto à cor preta nas roupas) para se manifestar contra os inúmeros casos de assédio em Hollywood.
E Grace, vendo isso na TV, decidiu falar com suas amigas e contar a história. Ela disse ao site feminista Babe, que publicou seu relato: "Creio que Aziz tirou vantagem de mim. Não fui ouvida, fui ignorada. Foi de longe a pior experiência que já tive com um homem".
Depois que a história veio à tona, Aziz deu uma declaração por escrito: "Em setembro do ano passado, conheci uma mulher numa festa. Trocamos telefones e mensagens e saímos. Fomos jantar, e depois acabamos em atividade sexual, que por todas as indicações foi completamente consensual. No dia seguinte, recebi uma mensagem dela dizendo que, depois de refletir, ela se sentiu desconfortável. Era verdade que tudo pareceu okay pra mim, então quando ouvi que não foi o caso pra ela, fiquei surpreso e preocupado. Levei suas palavras em consideração e respondi em privado depois de processar o que ela havia dito. Continuo apoiando o movimento que está acontecendo na nossa cultura. É necessário e já passou da hora". 
Todo o caso foi parar nos Trending Topics do Twitter no sábado. As pessoas ficaram divididas. Grande parte dos homens viram o caso apenas como um encontro que não deu certo. Muitas mulheres alegaram que o que foi descrito por Grace é típico -- caras tentarem "forçar a barra" quando elas não estão a fim -- e que pode ser visto como assédio sexual ou, no mínimo, comportamento sexual inapropriado. Algumas disseram que denúncias como essas tiram a seriedade de movimentos como o #MeToo. 
Na segunda, o El País publicou um ótimo artigo citando vários pontos de vista. Por exemplo, Emily Reynolds escreveu no The Guardian que o caso é difícil porque força os homens a reexaminarem seu comportamento. Segundo ela, um estuprador é tido como um monstro, mas atitudes como a de Aziz são muito mais comuns. 
Rachel Thompson, no Mashable, lembra que "dizer 'não' é mais complexo do que você imagina" (já que muitas vezes um "não" não é aceito e é respondido com violência), e critica quem aponta o que Grace deveria ter feito -- "ela deveria ter ido embora".  
Sobre isso, Grace justificou para o site Babe: "Eu não fui embora porque eu estava chocada. Não era isso que eu esperava. Tinha visto alguns dos episódios da série de Aziz e lido trechos do seu livro [Modern Romance, um bestseller que trata de sexo e namoro nos tempos da internet] e eu não esperava uma noite ruim, muito menos uma noite violadora e dolorosa".
Como mostra Thompson, a sociedade vive nos lembrando que "não" não é necessariamente não. Em colégios de elite nos EUA, alunos cantam hinos como "Não quer dizer sim! Sim quer dizer anal!". O bilionário Warren Buffet declarou que "se uma dama diz não, ela quer dizer talvez". E quantas piadas você já ouviu sobre o "não" ser na verdade um "sim! sim! sim!"?
Bari Weiss publicou no New York Times o contraponto mais virulento: "Aziz Ansari é culpado... de não saber ler mentes". Ela aponta:
"Aziz Ansari pareceu ser um homem agressivo, egoísta e desagradável naquela noite. Não é deprimente que homens (especialmente aqueles que se apresentam publicamente como feministas) geralmente se comportem dessa maneira privadamente? Não deveríamos tentar mudar essa cultura sexual fraturada? E não dá raiva que as mulheres sejam educadas para serem dóceis e acomodadas e para colocar os desejos dos homens antes dos delas? Sim. Sim. Sim. Mas a solução para esses problemas não começa com as mulheres perseguindo com tochas homens que não tenham sido capazes de entender seus sinais não verbais; a solução começa em sermos mais diretas. Dizer: 'Isso é o que me excita'. Dizer: 'Eu não quero fazer isso'. E, sim, às vezes dizer: 'Cai fora'".
Então... É possível concordar tanto com Reynolds e Thompson quanto com Weiss? São pontos de vista realmente tão divergentes assim?
Aziz sendo feminista
Sem dúvida é difícil para as mulheres falarem "não" e para os homens aceitarem que "não" é "não" mesmo. Nós mulheres somos ensinadas (talvez o termo doutrinadas seja mais apropriado) desde criancinhas a agradar os homens. Aprendemos que a opinião deles vale mais. Que seus desejos são mais importantes que os nossos. Que sem eles não somos ninguém. E, obviamente, os meninos aprendem a mesma coisa. Aprendem que são os reis do universo e mais -- que, como a opinião de uma mulher não é relevante, que como ela tem que "vender caro seu passe", seu "não" não é realmente um "não". E que se eles não insistirem, não vão conseguir sexo. E se não conseguirem sexo, não são homens o suficiente. 
(São todos ensinamentos tenebrosos, não? Por isso que educar crianças sobre questões de gênero é fundamental: pra debater e consequentemente virar de ponta-cabeça todos esses dogmas ridículos).
Porém, os tempos estão mudando, e nós mulheres temos mais força e poder hoje do que jamais tivemos. Precisamos ser fortes. Assim como não precisamos mais esperar os homens iniciarem a paquera, também podemos ser assertivas, nos levantarmos e ir embora. Quero dizer, não sempre, não quando há violência ou ameaça de violência, mas, no caso de Aziz, se Grace tivesse dito "Seu beijo é uma droga, eu tô indo embora, tchau", ele provavelmente não teria impedido sua saída. 
Lógico que é fácil eu falar. Eu tenho 50 anos, sou casada e monogâmica há 27. Então faz quase três décadas que eu não entro nessas situações de risco que são sair com um homem (incrível como um ato tão simples possa ser enquadrado como situação de risco!). Sinceramente, de vez em quando eu penso como seria minha vida romântica e sexual se eu não tivesse o Silvinho. Se algo acontecesse, se ele morresse ou a gente se separasse, o que eu faria? Como recomeçaria? Pra onde iria pra "conhecer homem" (já que eu sou hétero)? Conheceria pela internet? E aí, eu não ficaria exposta? Imagina se um cara filmasse (sem eu saber) a gente transando e jogasse na internet? 
Aí eu sempre concluo que, se algo acontecesse com o Silvinho, eu me aposentaria da minha vida romântica e sexual. É triste falar isso, mas acho que não teria estômago pra começar tudo de novo. 
Antes de conhecer o maridão (que foi meu primeiro e único "relacionamento sério"), eu transei com vários caras. Felizmente, nunca fui estuprada (consegui escapar de umas três situações de estupro, como já narrei aqui e aqui). Mas tive muito "bad sex" (sexo ruim). 
Lógico que me arrependi de ter transado com alguns (quem nunca?), assim como me arrependi de não ter transado com um ou outro. Já fiz sexo sem vontade, e nunca vi isso como estupro. A gente faz bastante coisa sem vontade na vida, e nem por isso é violência. "Sem vontade" não é o mesmo que "sem consentir". Você consente em transar, apesar de não estar muito a fim. Convenhamos: isso não é incomum nos casamentos. Muitas vezes os maridos transam sem estar com vontade também. 
Eu penso que, na minha juventude, me livrei de algumas situações ruins porque eu já era forte e decidida e feminista. Ao mesmo tempo, lembro que pouco mais de dez anos atrás, quando eu já era bem madura, um senhor se sentou ao meu lado no ônibus de Floripa a Joinville e, depois de um papo estranho, segurou a minha mão e beliscou a minha perna. E eu lembro que inventei uma desculpa pra mudar de lugar. Tipo: euzinha, apesar de forte e decidida e feminista, fui toda educada com um predador asqueroso. Sei que hoje em dia eu agiria de outra forma. 
No caso de Grace, pra mim parece bastante óbvio que, se fosse com um outro cara na mesma situação, ela teria dito não e ido embora rapidinho. Mas era o Aziz. Não deve ser fácil falar não pra uma celebridade. E, acima de tudo, uma celebridade que tinha uma imagem de homem inteligente, sensível, feminista. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

GUEST POST: "SOFRI PSICOFOBIA E DEIXEI DE SER CONTRATADA"

A jornalista Shaonny Takaiama já publicou três ótimos guest posts aqui no blog (este, este, e este). Este é o quarto, para narrar um relato triste e bem recorrente. Por conta da psicofobia, uma faculdade cancelou sua contratação.
Há vários pontos para discutir: existe sim preconceito contra quem sofre de doenças mentais (cerca de 21% da população brasileira)? Mas por quê, se esses transtornos podem ser controlados hoje em dia? Outro ponto: o que deve ser dito numa entrevista de emprego? Como agir num caso de discriminação flagrante desses (com processo?)? (Trolls, vocês não são bem-vindos). 
Conta tudo, Shaonny!

Eu passei o ano de 2017 inteiro tentando conseguir um emprego dentro da minha área de atuação -- jornalismo -- e numa cidade que não possui mercado de trabalho para isso. Quando essa porta finalmente se abriu, eu não acreditei. Era o emprego dos meus sonhos, a cinco minutos da minha casa, salário legal, a empresa parecia ser maravilhosa e ter um ótimo ambiente de trabalho, colegas muito legais, uma futura gestora bacana e compreensiva. Eu estava nas nuvens, pois passei muitas dificuldades no ano passado. Já estava tudo certo com a minha contratação. Até eu dizer, honestamente, por orientação do meu psiquiatra, do meu psicólogo e da médica do trabalho, que eu sou bipolar e borderline.
Foram três profissionais renomados me recomendando, de forma bastante assertiva, a falar isso para a minha futura gestora, para que eu não tivesse problemas no futuro ou pudesse ser demitida por justa causa caso eles descobrissem. E eu fui lá, reuni toda a coragem, e contei pra ela. A reação dela foi elogiar minha honestidade e dizer que isso contou pontos com ela, mas que ela teria de levar o caso para o diretor da instituição. Achei que o fato de eu ter sido honesta e provar para eles com laudos médicos assinados pelo meu psiquiatra e meu psicólogo de que estou estável mentalmente e apta para trabalhar seria considerado uma virtude. Mas me enganei.
Eles cancelaram o processo de contratação na hora -- eu até já tinha aberto a conta salário e feito o exame admissional. 10 de janeiro seria o dia que eu levaria os documentos para o RH com o laudo do psiquiatra, mais o laudo da médica do trabalho -- que me pediu dois laudos, do psicólogo e do psiquiatra. Eu começaria a trabalhar imediatamente, assim que estas questões burocráticas fossem resolvidas. Estava tudo certo mesmo. Sabem qual foi a alegação que eles me deram para cancelar a minha contratação? De que eu deveria ter dito no ato da entrevista de emprego que eu sou bipolar e borderline! Quem faz isso, minha gente?
Sério, durante uma entrevista de emprego, você já sai contando todas as suas doenças? Durante uma entrevista de emprego, você contaria que tem depressão, hepatite, ou que é soropositivo? Eu mencionei as minhas doenças logo após o exame admissional, ou seja, no momento certo. Eu não omiti nada, e eles tiveram o cinismo de alegar que eu omiti informações importantes na entrevista, sendo que ali não era o momento para falar e eu nem sequer fui questionada sobre esse assunto, pois, se tivesse sido, eu contaria sem medo toda a verdade. 
Outra coisa: por lei, não sou obrigada a revelar as minhas informações médicas para ninguém. Elas são sigilosas e esta instituição, ao dizer que era minha obrigação revelá-las já no ato da entrevista, está mostrando que não conhece o básico das leis trabalhistas.
Foi preconceito sim. Eu fui punida pela minha honestidade. Eles alegaram que eu omiti informações importantes no ato da entrevista e que, por causa disso, houve quebra de confiança com a instituição. Uma desculpa esfarrapada para não mostrarem o quanto são psicofóbicos, pois sabem que isso é considerado crime de discriminação.
Essa instituição é uma renomada faculdade voltada para a área do Direito, que se orgulha do fato de ter muitas décadas de tradição e ser considerada a melhor da região. A instituição em questão quer se modernizar, porém, ainda vive na década de 50. Não acompanhou os avanços da luta antimanicomial no Brasil, não sabe que hoje uma pessoa com um transtorno mental é perfeitamente capaz de trabalhar, desde que se trate corretamente, e este é o meu caso.
É triste que, por mais que falemos tanto em inclusão, quando o assunto são as doenças mentais, ainda vivemos na década de 50. Muitas pessoas (e parece ser o caso da empresa) ainda acreditam que o melhor para quem é neuroatípico é viver internado num hospital psiquiátrico, ou se aposentar, conseguir um benefício social etc. Eu não quero benefícios! Quero um emprego!
Os tratamentos evoluíram muito desde a década de 50. Até a minha doença mudou de nome. Antes, era chamada de psicose maníaco-depressiva e hoje é chamada de Transtorno Bipolar do Humor. Você vive normalmente e com qualidade de vida, é capaz de trabalhar e ter relacionamentos estáveis, se tomar seus remédios, fazer terapia, atividade física, cuidar do sono e da alimentação, ter um hobby e/ou uma religião ou seguir uma filosofia de vida, algo que te dê suporte nos momentos difíceis. 
Eu faço tudo isso, levo muito a sério o meu tratamento psicoterapêutico. Não bebo, não fumo, não vou em baladas, não uso drogas, cuido do meu sono, da minha alimentação, frequento a minha religião e, nas horas vagas, dou vazão à minha veia artística escrevendo, tecendo mandalas de lã, e fazendo artesanato. Em suma: sou super regrada.
Tudo que eu mais quero nessa vida é trabalhar, ser independente e viver do meu trabalho dignamente. Quem me conhece sabe da excelência do meu trabalho. Tenho um ótimo portfólio jornalístico, e escrevo também textos mais autorais e literários. Meus antigos colegas sempre me consideraram uma profissional acima da média. É só olhar no meu LinkedIn e ver os elogios que eu já recebi de antigos chefes -- e todos eles sempre souberam das minhas doenças.
Apesar de eu ser uma profissional dedicada e talentosa, que ama o que faz, uma empresa não me deu uma oportunidade de emprego porque parece só ver um lado meu: o lado da doença. Mas eu sou muito mais do que a minha doença. Eu sou Shaonny Takaiama, jornalista que, em outros tempos, quando trabalhava em grandes jornais, foi reconhecida nacionalmente, recebia cartas de leitores elogiando seu trabalho, foi convidada a trabalhar na Folha de São Paulo sem nem sequer mandar currículo.
Essa instituição que me negou o direito ao trabalho por pura PSICOFOBIA nem se deu ao luxo de ligar para meus antigos chefes para saber se a minha doença influenciava de alguma forma na qualidade do meu trabalho. Eles poderiam ter investigado mais a fundo, conversado com meus antigos gestores, com o meu psiquiatra e o meu psicólogo.
Quantos bipolares, borderlines e esquizofrênicos não foram artistas, cantores, pintores e atores memoráveis? A história mostra que há uma variedade enorme deles. Só aqui no Brasil, temos o jornalista Ricardo Boechat, que sofre de depressão e fala abertamente sobre isso, temos também a atriz Cássia Kiss, que é bipolar, temos o Jô Soares, que sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), temos o Selton Mello, que também sofre de depressão, 
temos o Padre Marcelo Rossi, outro portador de depressão, temos as cantoras Marina Lima, Zizi Possi e Paula Fernandes e a apresentadora Fernanda Lima, também portadoras de depressão -- o mal do século --, também temos o Maurício Mattar, outro bipolar como eu, a atriz Luciana Vendramini, que tem TOC e bipolaridade, o cantor Roberto Carlos, outro portador de TOC, a maravilhosa da Rita Lee, que também é bipolar, e a lista segue, imensa.
Todas estas pessoas citadas acima são ativas profissionalmente! Todas elas!
Psicofobia é crime previsto em Lei e dá cadeia. A Lei 236/12, criada pelo senador Paulo Davim, prevê como crime de discriminação cometer abuso ou desrespeito contra transtornados ou deficientes mentais. Também foi aprovada pela Comissão de Direitos Humanos, em maio de 2014, a PLS 74/14, para o crime ser enquadrado no Código Penal como injúria, e prevê pena de 2 a 4 anos a quem praticar psicofobia.
Este tipo de preconceito é real e é criminoso. É discriminação pura e simples. E dói muito, viu, gente? Dói muito você saber das suas capacidades e qualidades profissionais e o mundo te ver como uma pessoa inferior e incapaz.
Aliás, é justamente o fato de eu ser fora da curva que faz de mim a profissional acima da média que eu sou. Caso não saibam, o transtorno bipolar tem duas qualidades que ainda estão sendo estudadas pelos especialistas: bipolares são criativos e muito inteligentes por natureza. 
Vejam a gigantesca lista de bipolares famosos (a maioria são estrangeiros) que eu consegui reunir: temos o ator Jean-Claude Van Damme, a cantora Amy Winehouse (que era borderline), a cantora Demi Lovato, a atriz Catherine Zeta-Jones, a cantora Sinead O' Connor, a atriz Carrie Fisher (a princesa Leia, de Star Wars), o ex-presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln, a escritora Agatha Christie, a cantora Amy Lee, da Banda Evanescence, Axl Rose, o vocalista do Guns n' Roses, a cantora Britney Spears, o astronauta Buzz Aldrin, o ator Cary Grant, o cantor Cazuza, 
o ator Charles Chaplin, o escritor Charles Dickens, o autor Edgar Allan Poe, o cantor Elvis Presley, a atriz Elizabeth Taylor, os escritores Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o poeta Fernando Pessoa, o cineasta Francis Ford Coppola, os escritores Hans Christian Andersen e Honore de Balzac, o cientista Isaac Newton, a cantora Janis Joplin, o ator Jim Carrey, o cantor Jimi Hendrix, Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, o escritor Leon Tolstoy, a atriz Marilyn Monroe, o autor Mark Twain, o ator Mel Gibson, o artista Michelangelo, o general Napoleão Bonaparte, o compositor Peter Tchaikovsky, Phil Graham, dono do jornal Washington Post, o filósofo Platão (de acordo com a opinião de Aristóteles), o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, o ator Robin Williams, o pai da Psicanálise Sigmund Freud, 
o ator, comediante e escritor Stephen Fry (Além de ser portador do transtorno, Fry gravou um documentário sobre a vida dos bipolares que foi ao ar na BBC). E também o escritor Tennessee Williams, o político Ulisses Guimarães, o poeta Victor Hugo, o pintor Vincent van Gogh (alguns especialistas acreditam que ele era esquizofrênico, não há consenso, mas, de qualquer forma, ele também era neuroatípico), a escritora Virginia Woolf, a atriz Vivien Leigh, de E O Vento Levou, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o compositor Wolfgang Amadeus Mozart.
Se, para todas essas pessoas brilhantes e geniais, o transtorno bipolar do humor nunca foi um impedimento para que elas criassem obras memoráveis e deixassem sua marca no mundo, eu garanto que para mim isso também não é e nunca foi um impeditivo para eu trabalhar e ser elogiada. Mas o preconceito das empresas sim é um enorme impedimento para eu exercer o meu trabalho e deixar a minha marca no mundo.
Se puderem, peço que espalhem este texto, pois a mensagem tem que chegar ao máximo de pessoas que sofrem com isso. Está na hora do mundo mudar. Está na hora da cultura das empresas mudar. Abrem espaço para pessoas com deficiência física trabalharem (o que é ótimo e justo), mas não para pessoas neuroatípicas. 
Não sou eu que estou errada. É o mundo que está muito errado. E eu não vou deixar de expressar a minha indignação diante da discriminação que sofri. Esta não sou eu. 
Eu não me calo diante das injustiças. E esta luta não é só minha. Tenho certeza que não fui a única pessoa discriminada por ser borderline.
Gravei também um vídeo explicando com mais detalhes tudo o que aconteceu comigo.