sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MULAMBA, O VDEOCLIPE MARAVILHOSO DE UMA BANDA ESPETACULAR

Conheci o trabalho da banda Mulamba ano passado, após alguém me enviar o link para uma música (e um vídeo) fantástica, a "P.U.T.A."
Esse vídeo viralizou e consolidou o sucesso do grupo curitibano só de mulheres, que está chegando ao seu segundo ano juntas. 
Esta semana recebi um email da cineasta Virginia de Ferrante, que me pediu para assistir um videoclipe feito por ela com a banda Mulamba. 
Ela disse: "Meus trabalhos no audiovisual sempre foram ligados à temática feminina (mesmo na época em que eu nem sabia direito o que era isso) e neste projeto visamos não só ter um produto final bonito, mas o processo também foi altamente transformador para todas as mulheres envolvidas. Realizamos uma espécie de experiência social na forma de documentário e mesclamos com videodança. Sinto que o objetivo de fazer mulheres se sentirem representadas foi alcançado quando recebo retornos muito emocionantes de quem assiste".
O videoclipe é uma experiência arrebatadora. Única. Que trabalho maravihoso que essas mulheres fizeram! Peço para que vocês vejam, revejam, deem like, e compartilhem. É um modelo de empoderamento e sororidade. Todas estão de parabéns!
Publico aqui um texto pessoal da Virginia. 
Era fevereiro quando a Caro Pisco me pediu ajuda para desenvolver um roteiro. 
Eu, intrometida que sou, me escalei para não só escrever mas também dirigir o primeiro clip dessa nova banda que tinha me arrepiado com suas músicas e verdade. Elas toparam e depois de muita conversa chegamos à conclusão que esse projeto tinha que ser sobre as mulheres reais e que o processo dele tinha que ser tão transformador quanto seu resultado.
Como tudo que é transformaDOR tem dor no meio, a banda toda aceitou o desafio de estar com várias outras mulheres desconhecidas para uma experiência de auto-conhecimento que gerou um imenso movimento de sororidade e troca.
Nesse dia, eu olhava para a equipe, que chorava só de ver a cena acontecendo. Junto disso um outro cara, que é uma das pessoas mais competentes que eu conheço, disse sim mais uma vez para um pedido meu, sem grana mas cheio de energia: criar uma máscara, em low poly, que tivesse a inspiração em um útero. Máscara a qual seria usada por uma bailarina foda que traria à vida uma personagem que iria quebrar/ queimar padrões, representar a força das mulheres e usar a arte para transmitir algo semelhante com a parte documental do clip. 
Se não bastasse isso ainda conheci e revi muita gente talentosa se doando pelo projeto e tive a sorte gigante de ao fim da linha ter uma pessoa sensível o bastante para saber recortar e montar o filme. [Vejam o making of do clipe].
Não foi difícil me inspirar para escrever e criar com uma letra dessas, com os sons do cello, da bateria e as vozes dessas mulheres poderosíssimas e eu tenho muito que agradecer por terem acreditado que eu conseguiria fazer jus à música transformando-a em imagem. 
É muito emocionante e recompensador poder juntar artes e chegar em um resultado maior, é muito bom fazer algo em que se acredita e também é muito bom voltar a confiar um pouquinho em si própria. 
Me perguntaram: e o que mudou para você esse projeto? Esse clip é um fechamento de ciclo. Fechamento de um caminho longo e dolorido que foram os últimos anos com a vontade de desistir de tudo e zero autoconfiança que eu poderia fazer ou terminar qualquer coisa decente. 
É lógico que eu tenho mil críticas a fazer, afinal, sou eu e autoestima não é o meu forte, por mais que pareça. Mas quero poder pegar todo esse reconhecimento que este trabalho está tendo para seguir em frente, acreditando que é possível se comunicar com outras pessoas por meio do audiovisual.
Obrigada MUITO todo mundo que está compartilhando, elogiando e se identificando. 
E aqui publico um informativo sobre o clipe e a banda:
Histórias reais e videodança compõem clipe visceral de “Mulamba”, música que originou o nome da banda curitibana
Em vídeo intenso, diretora Virginia de Ferrante une documentário e ficção para trazer à tona discussões como sororidade e empoderamento
Transformar a dor em força e se libertar: essa é a mensagem transmitida pelo clipe do single “Mulamba”. A composição, que inspirou o nome da banda Mulamba, resultou em um clipe intenso ao mesclar documentário e videodança. Repleta de sensibilidade, a obra é um manifesto pela sororidade e empoderamento, com roteiro e direção da cineasta Virginia de Ferrante e montagem de Ana Carolina Vedovato. 
Realizado de forma independente, o clipe contou com uma rede de parcerias entre mulheres. “A gente vem de uma sociedade que massacra o feminino e esta música nos fez entender que falamos sobre muitas agonias vividas por mulheres. Foi um processo de reencontrar-se e reconhecer-se, lembrando de memórias doloridas e prosseguindo na caminhada. É como se tudo tivesse feito sentido e agora veio o alívio. Foi uma experiência transformadora para quem participou, desde a equipe até as mulheres que aceitaram se abrir conosco”, afirma a cantora Cacau de Sá, que compôs a letra em conjunto com a vocalista Amanda Pacífico.
Com o intuito de proporcionar vivências reais, o clipe tem a presença de várias mulheres que contaram suas histórias em uma dinâmica conduzida pela psicóloga Lari Tomass. Os relatos foram preservados e apenas as imagens são apresentadas ao público, revelando expressões corporais que se transformam ao longo da narrativa. Também são exibidos momentos de conexão entre as seis integrantes da banda e as mulheres participantes.
Em paralelo, a atriz Nayara Santos interpreta uma personagem fictícia, uma espécie de entidade que representa a própria figura da “Mulamba”. Com o rosto coberto por uma máscara em formato de útero, a protagonista destrói objetos simbólicos num processo de libertação. A escolha dos elementos também é fruto de uma pesquisa feita com mulheres que relataram situações de opressão ao longo de suas vidas.
“A personagem é a encenação de uma força interior que todas nós temos para suportar momentos difíceis. Nesse contexto, a máscara é uma ‘proteção’ para aguentar esses momentos e, ao final, ela deixa o escudo para mostrar que não precisa mais usar uma defesa. Ao mesmo tempo em que ela se liberta, as mulheres que contaram suas histórias também estão dançando e libertadas, culminando em uma simbiose”, explica Virginia.
Sobre a Mulamba
Unindo influências que vão do rock à música erudita, Mulamba representa um grito de vozes silenciadas. Desconstrução e letras impactantes marcam o trabalho da banda curitibana, que traduz suas mensagens por meio de uma linguagem poética e performances irreverentes.
Formada em dezembro de 2015, Mulamba é composta por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Fer Koppe (violoncelo), Naíra Debértolis (baixo) e Nat Fragoso (guitarra). O sexteto conquistou visibilidade após a repercussão do vídeo de “P.U.T.A”, gravado em parceria com a HAI studio.
A banda foi considerada destaque no Vento Festival 2017, um dos principais festivais independentes do Brasil, ao lado de nomes como Francisco, el hombre. Em julho, foi lançado o videoclipe da música "Mulamba" e, ainda este ano, o álbum de estreia será gravado no Red Bull Station, em parceria com o Vento Festival.
Vida longa à Mulamba! E a todas as mulheres que sobrevivemos e lutamos!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O SIMBÓLICO SERVE À VIOLÊNCIA

Lembro bem de um caso terrível de estupros durante um trote ocorrido na Unesp de Botucatu, em 2014. O Coletivo Feminista Genis entrou em contato comigo e, no ano seguinte, fui palestrar no campus sobre a questão das mulheres na universidade, os trotes machistas e a violência sexual. 
Ainda em 2015, aconteceu a CPI Violações dos Direitos Humanos nas Faculdades Paulistas. A Unesp de Botucatu, assim como várias outras universidades do estado de SP (USP, Unicamp, PUC), depôs na CPI sobre as violências que aconteciam no campus relacionadas aos trotes e às mulheres. Na CPI, o Coletivo Genis fez a primeira denúncia contra a bateria da Faculdade de Medicina de Botucatu, a Bateria Bucetuda Botucuda. 
Como me relatou uma das integrantes do Coletivo, "Além de ter um nome péssimo, a bateria tem também um símbolo que objetifica a mulher e veiculava, até aquele momento, seu hinário de músicas contendo muitas músicas machistas e que falavam abertamente sobre estupro. Como era a única faculdade do estado de SP que tinha músicas que falavam abertamente sobre estupro, surgiu o interesse de parte da mídia sobre a bateria. 
"Logo depois da CPI, uma das alunas do Coletivo deu uma entrevista falando sobre as músicas da bateria e foi fortemente rechaçada e perseguida dentro da universidade, pela bateria e até mesmo pela diretoria da FMB da época. Após essas denúncias a bateria passou a não veicular mais seu hinário; no entanto, o símbolo e o nome da bateria de mantiveram. Recentemente a discussão em torno da Bateria ressurgiu com reivindicações pela mudança do nome da bateria e de seu símbolo. Nesse sentido, o Coletivo Genis gostaria muito de solicitar apoio à luta".
Publico, portanto, a carta aberta do Coletivo Genis:

O Coletivo Feminista Genis da Unesp de Botucatu, diante dos últimos debates e repercussões acerca do nome e símbolo da Bateria Bucetuda Botucuda da Faculdade de Medicina de Botucatu, ratifica seu posicionamento e constante luta ao lado das mulheres que ao longo dos últimos anos levantam a discussão a respeito da objetificação feminina e a real necessidade de construirmos novas perspectivas para a mulher na sociedade. 
Assim, é preciso que nos debrucemos sobre o simbólico. Há um poder que se deixa ver menos ou que podemos dizer invisível. 
Esse poder que se exerce pela ausência de importância dada a sua existência, esse poder ignorado é que fundamenta e movimenta uma série de outros poderes e atos. O poder que está por trás, escondido nas entrelinhas, e que é cunhado com este propósito. “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (Bourdieu, 1989).
Mas se não o vemos, através de quê ele se manifesta? A quem serve essa carapaça? E se os sujeitos não querem trazê-lo ao consciente individual e coletivo, como fazê-lo?
Os sistemas simbólicos (a língua, a arte, a religião) são as estruturas que edificam e revelam a perversidade sutil do simbólico. É através da língua e da cultura, por exemplo, que os indivíduos constroem sua visão de mundo e passam a delinear como verdadeiro aquilo que foi determinado socialmente como se a homogeneidade dos discursos fossem premissas da legitimidade.
Os símbolos são instrumentos sociais que carregam em si o potencial de mudança ou de reafirmação e reprodução de paradigmas de um status quo que ultrapassa a barreira do tempo e dos conhecimentos adquiridos para que se estabeleça a dominação desejada. A cultura dominante atrai e integra a classe que a compõe e gera a falsa consciência das classes dominadas por meio da hierarquia que legitima essas relações assimétricas e hegemônicas, das desqualificações, dos preconceitos e das violências de todo tipo.
Marcha do Coletivo
Genis em Botucatu
Diante disso, trazemos ao debate a violência de gênero que se expressa com força nas instituições sociais brasileiras. Diariamente, nós, mulheres, ouvimos piadinhas, canções e poemas, ou vemo-nos diante de contos, novelas, comerciais e anúncios, ou até mesmo de livros didáticos, de toda uma produção cultural que dissemina imagens e representações degradantes. Essas imagens contribuem na construção de nossas individualidades e de nossa identidade social. A violência simbólica de gênero é uma das mais violentas formas de cerceamento dos indivíduos e, por isso, possui raízes profundas e de difícil acesso a todas e todos nós. Seu caráter sinuoso e mascarado torna o combate e o real entendimento de suas implicações muito difícil e por vezes inacessível a uma parcela da sociedade (dominante ou dominada). 
Precisamos entender que os dados da violência contra a mulher no Brasil estão intimamente ligados a esse poder simbólico e revelam o quanto precisamos caminhar para desvendar todas as estratégias que reforçam a violência de gênero. Mesmo sendo um dos países que dispõe de lei específica contra a violência às mulheres, como a Lei Maria da Penha (n° 11.340, de 2006) e a Lei do Feminicídio (n° 13.104, de 2015), em 2016 uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência. 
Se considerarmos apenas as agressões físicas, 503 mulheres brasileiras tornaram-se vítimas a cada hora de 2016. De acordo com o relatório “Every Last Girl” da organização não governamental internacional “ Save The Children”, o Brasil está entre os piores países para se nascer mulher no mundo, ocupando o 102º lugar entre 144 países analisados. 
Assim, não podemos nos calar diante da violência simbólica expressa nas músicas e símbolos das baterias universitárias, principalmente em nosso campus. O Coletivo Feminista Genis reitera sua constante luta contra as violências de gênero e a importância da liberdade nas decisões que se constroem a partir de debates coerentes e que respeitem também os debates dos direitos humanos. Não compactuaremos com a manutenção de estruturas, ainda que simbólicas, que contribuam para que sejamos vítimas diárias do machismo. 
Repudiamos qualquer tentativa de falso paralelismo entre a luta feminista e o símbolo da Bateria Bucetuda Botucuda. Não há dúvidas de que a tentativa de encobrir a história trazendo ao presente novos traços mais amenos é, novamente, violentar a todas nós mulheres e tentar nos calar usando da nossa própria luta. O mesmo momento histórico que produziu músicas que exaltam o estupro não pode ter criado nenhum símbolo empoderador da mulher.
Dispostas ao debate e a combater toda forma de opressão, 
Coletivo Feminista Genis
Somos todas Genis!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

AS MELHORES DICAS PRÁTICAS PARA QUEM VAI PRA CUBA

Conheci recentemente a professora Martha Daisson Hameister, do Departamento de História da UFPR, ao fazer parte da banca de uma orientanda dela. Quando ela viu que eu vou pra Cuba em dezembro, de férias, me deu as melhores dicas, realmente muito generosas.
Parece que todo mundo já foi pra Cuba menos eu, e todos que foram amaram e estão me presenteando com excelentes sugestões. Mas as da Martha foram as mais completas e práticas. Então deixo-as aqui com vocês. Vai que elas ajudam mais "mortadelas que obedecem aos inúmeros pedidos de 'Vai pra Cuba!'".

1) Varadero é caro e cheio de turistas. Mas há praias pequenas perto de Havana, como Santa Maria del Mar, que se pode ir pela manhã e voltar à tarde. Na época, ida e volta custava pouco mais de 10 reais. Deves levar a "farofa" -- sanduíches e principalmente água -- pois como em toda praia, tem o que comer, mas custa mais caro.
2) Para hospedagem, o melhor lugar é ficar em uma casa no bairro VEDADO [muitos brasileiros recomendam também Havana Velha]. Fica perto do Malecón [a orla de Havana], tem muitos serviços, caixas eletrônicos, padarias e vida noturna. 
Há bons cafés, bares e restaurantes. Há a sorveteria Copélia -- a favorita de Fidel -- embora eu não tenha encontrado outra... 
Uma amiga se hospedou com filha e sobrinha adolescentes nessa casa, mas nesse site há outras tantas. Vedado e toda Havana é muito segura. Passeia-se a qualquer hora do dia ou da noite sem maiores preocupações. Caixa eletrônico não tem porta, por exemplo. 
Eu fiquei numa casa de uma senhora de uns 70 anos que foi alfabetizadora do exército cubano. Alfabetizava soldados e civis como sua missão revolucionária. 15 dias de convívio com as pessoas em seu próprio meio dão mais conhecimento do que um curso inteiro sobre isso. Aliás, perguntei-lhe se não temia pela cooptação de jovens e ataques às conquistas cubanas após as negociações com EUA. Ela fez um discurso inflamado sobre a ciência que os cubanos, jovens e velhos, têm sobre os benefícios da revolução, da saúde para todos, da educação para todos e tanta outra coisa. Concluiu: "Y se no les gusta Cuba, que se vayan todos para allla".
3) Querendo ou não, se emagrece em Cuba. Nada de comida a la carte farta. O que há são excelentes PFs, arroz, feijão, carne de porco, frango ou ovo e alguma salada. Muito difícil comer carne de gado. São reservados basicamente para o leite, que é distribuído gratuitamente para crianças, gestantes, lactantes, idosos ou sob prescrição médica. Se és viciada em leite, leva leite em pó. Leite é CARÍSSIMO em Cuba. Algo como 40 reais uma latinha de leite Ninho. 
4) Toda água de Cuba é tratada. O problema são encanamentos velhos, muitas vezes de chumbo e as caixas d'água precárias. Portanto, é bom comprar água ou apanhá-la nas garrafinhas nas torneiras ao rés do chão -- em praças, jardins ou coisa assim -- a água que ainda não subiu para a caixa nem passou pelos canos de chumbo. Ainda assim, há casas que já trocaram os encanamentos e caixas d'água e, portanto, não há problema maior em consumi-la.
A água em Cuba custa 1 CUP meio litro (é cara, porque 1 CUP = mais ou menos 1 dólar). Mais barato se pegar garrafa grande. Ultimamente, tenho resolvido meus problemas com água em viagem -- como você, também bebo muita água e gasto muito em água. Imagina, um mínimo de 5 dólares/dia em água -- após essa viagem a Cuba. Comprei uma jarra-filtro de carvão ativado e levo junto. Coloco algumas peças de roupa -- camisetas, toalha ou o que seja, dentro e em torno dela para não quebrar. Essa aqui, ó. Comprei em uma loja da própria filtros Europa. Há refil para o filtro do carvão. 
Na primeira viagem ela já paga seu preço! Tem também a garrafinha filtro individual para os passeios.
5) Ao contrário do que dizem, há sim material de higiene, embora caros para turistas. Convém levar uns sabonetes a mais, pois é um bom presente para as pessoas encantadoras que irás conhecer. Não há mosquitos (como me apavoraram quando eu estava para viajar). Não há necessidade de repelentes.
6) LIVROS: há boas livrarias e sebos em Vedado. São MUITO baratos e vendidos pelo peso cubano e não pelo turístico. Saí com 2 sacolas de livros e gastei em torno de 30 reais no câmbio da época (2015).
7) Dinheiro em papel: melhor levar EUROS. O dólar tem um ágio de 10% ou 20% como retaliação ao embargo. Euro pega um câmbio melhor. 
Depois disso, é bom trocar uma quantia de CUCs -- dinheiro de turista -- por CUP -- dinheiro de cubanos para as pequenas despesas. Muito cuidado pois o design das notas é muito parecido. Minha observação para não entregar o dinheiro errado: CUC tem monumentos nas notas. CUP tem as personagens em "retrato". (Algo como CUC tem monumento a Che Guevara e CUP a efígie do Che Guevara). 
Tem casa de câmbio perto da sorveteria Copélia, perto do hotel Habana Libre. Tudo o que conseguires pagar em CUP vais pagar mais barato. Ah, reserva um troquinho para trazer as notas de 3 CUP para presentear amigos: ela tem a efígie do Che, é uma boa lembrancinha de viagem.
Esse conversorzinho aqui é de grande valia para ver qual a situação mais vantajosa, se dólar ou euros. Nós optamos por levar euros, que fomos comprando no Brasil aos poucos. Essa outra página apresenta por cidades no Brasil a cotação e quais as casas de câmbio que têm melhores taxas. Não adianta levar cartão de crédito para Cuba, que ainda não são muito aceitos.
8) Há pequenos comércios para cubanos e nesses se paga com peso cubano, a menos que te cobrem em CUC. Pão e outras coisas dessas são comprados de modo mais barato. Só tem que descobrir onde ficam. Frutas como manga, banana, abacate são vendidas na rua, por vendedores que passam de carrinho de mão. Alguns, ao verem que és turista, vão tentar aumentar o preço. Não paga. Lá há o "a peso", ou seja, uma unidade = 1 CUP. 
Ônibus urbanos são legais, meio aventura, são pagos em CUP ou se não tens dinheiro trocado, não precisa pagar. Não tem cobrador. Tem uma caixinha para botar o dinheiro -- muito pouco, baratíssimo (cerca de 1 CUP, ou 16 centavos de real) -- que funciona como um "pote da honra". O passageiro põe o dinheiro da passagem ou não põe. Num ônibus que peguei havia o aviso de que podes ir sem pagar se estás sem dinheiro, fica para a próxima o pagamento.
9) Se fazes uso de algum medicamento, leva junto. Não se compra medicamentos sem receita médica em Cuba, nem dipirona para a enxaqueca. O serviço de saúde é excelente, mas não abrange os turistas. Leve lenços de papel para emergências de ir ao banheiro quando estiveres em algum passeio. Embora nunca tenha entrado em um banheiro sem papel higiênico, isso pode acontecer. 
Também o papel higiênico não é tão suave... convém ter um rolinho na bagagem. 
Quando deixamos a casa em que estávamos, a dona recolheu tudo aquilo que não levaríamos: sabonete em uso, o resto do papel higiênico, sacolinhas de supermercado... aí, dei para ela a sobra do meu leite em pó e os xampus que dariam mais trabalho em trazer de volta do que deixar lá. Ficou muito agradecida.
10) Há muitos espetáculos na rua ou em teatros, baratos ou gratuitos, e os cubanos adoram informar sobre eles. 
11) Um pouco de cuidado em uma prática de exploração de turistas: um cubano se oferece para te levar a algum lugar, bar, restaurante, casa de espetáculos. Lá ele começa a pedir comida e bebida e a conta recai no turista.
12) A parte ruim: cuidado com os motoristas de táxi chamados "máquinas" apanhados na rua. É só preciso ficar atenta. Há uma quadrilha de taxistas especializados em roubo a turistas. Ou sequestro de bens. Quando fui para a rodoviária (incluímos Guantanamo no roteiro), o taxista me "ajudou" a tirar a bagagem. Eu alcançava a mochila e a bolsa de viagem e ele em vez de colocar na calçada ou entregar ao meu companheiro de viagem, colocou no banco da frente. Na mochila estavam meus documentos: passaporte, visto de entrada, etc. 
Precisei fazer um enorme de um drama, chorar e dizer que era professora e que o sonho da minha vida, conhecer Cuba, havia virado um pesadelo. Outros taxistas se "mobilizaram" e localizaram o táxi. Óbvio que pediram uma propina, pois haviam gasto gasolina, deixaram de fazer corridas etc. Resolvido o problema, uma outra turista/cubana que vive na França, começou a gritar que haviam sumido os presentes que levava para a família em Santiago. Roubaram garrafas de vinho, roupas e mais coisas que são custosas em Cuba, como chuveiro elétrico. 
13) Essa foi a única experiência ruim que tive e portanto, te alerto para ter cuidado. De resto, pegamos táxis compartilhados na rua, paga-se muito barato. 
Vai um número grande de pessoas ou o táxi para para apanhar mais gente. É bom, se conhece mais pessoas, conversa-se sobre a vida, o universo e tudo o mais. Os cubanos são muito cultos, pode-se conversar sobre a política brasileira ou cubana com um camelô ou com uma senhora parada na rua que cuida das crianças que estão jogando bola...
14) Incluí Guantánamo na viagem porque há anos me correspondo com um cubano que tem o mesmo sobrenome de minha mãe e que me achou na rede. Como ir a Cuba e não visitá-lo? Foi uma aventura e tanto. Viajar dentro de Cuba sai caro para turistas (há preços de passagens diferentes para turistas e para cubanos) e foi quando eu passei o perrengue do sequestro dos bens no terminal dos ônibus em Havana. 
A viagem foi de 3 dias e foi ÓTIMA. Conheci a sua família, passeamos por praias no sul da ilha, conheci uma cidade muito musical (toda Cuba é), com cafés que após o entardecer se tornam em uma praça de dança, na praça mesmo,  na frente do café, com rumba ao vivo e gente de todas as idades dançando. Músicos de excelente qualidade, pois o ensino da música também é gratuito em Cuba!
15) Ah, sobre assédio na rua, que é muito comum em Cuba: a sobrinha adolescente da minha amiga, jovem, creio que com 17 ou 18 anos, ruiva, lindinha, estava revoltada com os psiu, hermosa, guapa, etc de assediadores que por vezes a seguiam por uma quadra ou mais. Aí ensinei para ela a chave do mistério: dizer em alto e bom som "no me molestes". Cubanos chegam, jogam o xá-lá-lá sedutor ou assediador, mas respeitam o não. Não só esses assediadores, mas também os bêbados inconvenientes -- bebe-se e fuma-se muito em Cuba, terra do rum e dos tabacos. Resolve-se o problema com "no me molestes". 
16) A população e a polícia são desarmados. Pouquíssimos homicídios, em geral passionais ou briga de bêbados ou em família e com arma branca. São latinos, né? Fazem escândalos por dor de amor, brigam, gritam, etc. Mas não há muitos casos de homicídio. 
Policiais são policiais, mas são gentis (muito gentis perto dos que conhecemos por essas paragens). Também têm atenção especial com os turistas. Meu companheiro de viagem, gay, estava conversando com um rapaz na frente de uma boate. Os policiais chegaram, pediram documento de ambos e perguntaram se o rapaz lhe havia pedido dinheiro ou alguma outra coisa, ao que ele respondeu que não, que estava pedindo informações ao rapaz e que esse estava sendo muito gentil em responder-lhe. Os policiais foram embora, desejando boa estada em Havana e que procurasse a polícia caso tivesse qualquer problema. Foram um pouco mais duros com o rapaz cubano, mas não foram truculentos nem mal educados. 
17) Há bastante tolerância aos gays, há show de transformistas em casas noturnas. Esse amigo meu ficou pasmo. Teria um show nessa boate e ele entrou para ver. Um cantor lírico gay fez uma apresentação a capellla maravilhosa, de trechos de ópera de Mozart! Na boate tinha muitos namorados, fazendo namoro de sofá, mãozinha dada e olho no olho com paixão.
18) Cubanos são dados a pedir coisas. Não se trata de miséria ou exploração. Eles são generosos também e estão acostumados a se socorrerem mutuamente. Um dá um isqueiro, mas amanhã poderá estar pedindo parafusos ou pregos. É um hábito que não deve ser encarado como afronta e exploração, mas como uma cooperada forma de driblar a carência de certas coisas.
19) Ah, lembra da tua infância, quando apareceram as sacolinhas plásticas de supermercado? A mãe lavava e deixava secando para usar de novo? [Não lembro disso, Martha!] Pois bem, em Cuba fazem o mesmo. Não possuem indústria de produtos plásticos e se pode ver muitas sacolinhas secando nos varais. Leva sacola retornável para carregar o pão, a água e outras coisinhas dessas. 
Em geral, os produtos não são embrulhados ou são embrulhados em papel de armazém (lembra disso também, né?). [Ok, isso sim!]. Leva algumas sacolinhas plásticas para coisas que são molhadas ou podem vazar. 
Ao final da viagem, o que deixares lá, sacola retornável ou a plástica, será bem apreciado por quem as receber. 
20) Levei para o "primo" de Guantanamo uma sacolinha de evento que organizei, aquelas de algodão cru, com o material do evento dentro: bloquinho, caneta e o caderno de resumos. Ficou muitíssimo agradecido por tudo. Os materiais escolares o governo fornece, mas... ele não é mais estudante. Ele adotou a sacolinha como seu porta-coisas de todo o dia e o bloco e a caneta também foram muito bem recebidos. 
A gente vive há tanto tempo na abastança dos objetos de consumo e com dinheiro para comprá-los que esquece como era o tempo em que tudo pesava no orçamento. Cuba evoca essas lembranças de infância.